sexta-feira, julho 25

HISTÓRIA:

Como os britânicos dividiram o mundo árabe:
O desenvolvimento dos modernos estados-nação em todo o mundo árabe foi um processo degradante e comovente. Há 100 anos, a maioria dos árabes faziam parte do Império Otomano onde mantinha o estatuto de Califado, um grande estado multiétnico, com sede em Istambul. Hoje, o mapa político do mundo árabe parece um quebra-cabeças muito complexo. O curso complicado e intrincado dos acontecimentos das duas primeiras décadas do século XX trouxeram o fim do Império Otomano e a ascensão dessas novas nações com fronteiras que atravessam o Médio Oriente, dividem muçulmanos e causam guerras. Embora existam diversos fictores que levam a isso, o papel que os britânicos tiveram nesta situação, foi maior do que qualquer outro País, nessa região. Três acordos separados fizeram promessas conflituantes que os britânicos tiveram que aguardar. O resultado foi uma confusão política que dividiu uma grande parte do mundo muçulmano.A eclosão da Primeira Guerra Mundial:No verão de 1914, estourou uma guerra na Europa. Um complexo sistema de alianças, uma corrida armamentista militarista, as ambições coloniais e má gestão geral nos mais altos níveis do governo levou a esta guerra devastadora que tiraram a vida de 12 milhões de pessoas 1914-1918. No lado "Aliado" estavam os impérios da Grã-Bretanha, França e Rússia. Os poderes ''Centrais'' consistiam em Alemanha e Áustria-Hungria.No início, o Império Otomano decidiu permanecer neutro. Eles não eram quase tão fortes quanto qualquer um dos outros países que lutavam na guerra, e foram assolados por ameaças internas e externas. O sultão otomano e califa não era nada mais do que uma figura de proa, neste ponto, com o último sultão poderoso, Abdul Hamid II, depois de ter sido derrubado em 1908 e substituído por um governo militar liderado pelos "Três paxás". Eles eram de um grupo secular ocidentalizado, os Jovens Turcos. Financeiramente, os otomanos estavam num dilema sério, com enormes dívidas para as potências europeias que não foram capazes de pagar. Depois de se tentarem juntar ao lado dos Aliados e serem rejeitados, os otomanos aliaram-se com as Potências Centrais em outubro de 1914.Os britânicos começaram imediatamente a conceber planos para dissolver o Império Otomano e expandir o seu império no Médio Oriente. Eles já tinham o controlo do Egito desde 1888 e da Índia desde 1857. Os Otomanos no Médio Oriente estavam bem no meio dessas duas colónias importantes, e os britânicos estavam determinados a exterminá-los como parte da guerra mundial.A revolta árabe:Uma das estratégias britânicas foi colocar os árabes contra o Império Otomano. Eles encontraram um ajudante pronto e disposto, no Hejaz, região ocidental da Península Arábica, Sharif Hussein bin Ali, o emir (governador) de Meca, que entrou num acordo com o governo britânico, a se revoltar contra os otomanos. As suas razões, para se aliar com os britânicos estrangeiros, contra outros muçulmanos permanecem incógnitas, embora, as possíveis razões para a sua revolta possam ter sido: desaprovação com os objetivos nacionalistas turcos dos Três Paxás; uma rixa pessoal com o governo otomano, ou simplesmente um desejo de ter o seu próprio reino.Quaisquer que fossem os motivos, Sharif Hussein decidiram revoltar-se contra o governo otomano em aliança com os britânicos. Em troca, os britânicos prometeram fornecer dinheiro e armas para os rebeldes, para ajudá-los a lutar contra o exército otomano muito mais organizado. Além disso, os britânicos prometeram que depois da guerra, a eles seria dado o seu próprio reino árabe que cobriria toda a Península Arábica, incluindo a Síria e o Iraque. As cartas em que os dois lados negociavam e discutiam, na revolta eram conhecidas como a correspondência McMahon-Hussein, por que Sharif Hussein estava comunicando com o Alto Comissariado Britânico no Egito por intermédio de Sir Henry McMahon.Em junho de 1916, Sharif Hussein levou o seu grupo de guerreiros beduínos armados, do Hejaz numa campanha armada contra os otomanos. Alguns meses depois, os rebeldes árabes conseguiram capturar várias cidades do Hejaz (incluindo Jidá e Meca) com a ajuda do exército e da marinha britânica. Os britânicos deram apoio na formação de soldados, armas, dinheiro, assessores (incluindo o "lendário" Lawrence da Arábia), e uma bandeira. Os britânicos no Egito elaboraram uma bandeira para os árabes para usarem na batalha, que era conhecida como a "Bandeira da Revolta Árabe". Esta bandeira mais tarde tornar-se-ia no modelo para outras bandeiras árabes de países como Jordânia, Palestina, Sudão, Síria e Kuwait.Enquanto a Primeira Guerra Mundial progredia durante 1917 e 1918, os rebeldes árabes conseguiram capturar muitas das grandes cidades otomanas. Os britânicos avançaram na Palestina e no Iraque, capturando cidades como Jerusalém e Bagdade, os árabes ajudaram-nos através da captura de Amã e Damasco. É importante notar que a revolta árabe não tinha o apoio de uma grande maioria da população árabe. Foi um movimento minoritário comandado por alguns líderes que procuravam aumentar os seus próprios poderes. A grande maioria do povo árabe ficou longe do conflito e não apoiou os rebeldes ou o governo otomano. O plano de Sharif Hussein para criar o seu próprio reino árabe foi um sucesso até então, se não fosse por outras promessas que os britânicos viriam a fazer.O Acordo Sykes-Picot:Antes que a revolta árabe pudesse mesmo começar e antes de Sharif Hussein criar seu reino árabe, os britânicos e os franceses tinham outros planos. No inverno de 1915/1916, dois diplomatas, Sir Mark Sykes da Grã-Bretanha e François Georges-Picot da França secretamente reuniram-se para decidir o destino dos pós o o  O Otomano do mundo árabe.Com acordo, que ficaria conhecido como o Acordo Sykes-Picot, os britânicos e franceses concordaram em dividir o mundo árabe entre si. Os britânicos estavam a tomar o controlo do que é hoje o Iraque, Kuwait e Jordânia. Aos franceses foram dadas a Síria moderna, o Líbano e o sul da Turquia. A situação da Palestina deveria ser determinada mais tarde, com as ambições sionistas a serem levadas em conta. As zonas de controlo que os britânicos e franceses criaram, permitiram uma certa quantidade de autodomínio árabe em algumas áreas, embora com controlo europeu sobre esses reinos árabes. Em outras áreas, os britânicos e franceses tinham o controlo total.Apesar de ter sido concebido para ser um acordo secreto para um pós-Primeira Guerra Mundial no Médio Oriente, o acordo ficou conhecido publicamente em 1917, quando o governo russo bolchevique o expôs. O Acordo Sykes-Picot contradiz diretamente as promessas feitas pelos britânicos a Sherif Hussein e causaram uma quantidade considerável de tensão entre os árabes e britânicos. No entanto, este não seria o último dos acordos conflituantes que os britânicos fariam.A Declaração Balfour:Outro grupo que queria um pedaço no cenário político do Médio Oriente eram os sionistas. O sionismo é um movimento político que apela à criação de um Estado judeu na Terra Santa da Palestina. Tudo começou em 1800 como um movimento que buscava encontrar uma pátria fora da Europa para os judeus (a maioria dos quais viviam na Alemanha, Polônia e Rússia). Eventualmente, os sionistas decidiram pressionar o governo britânico durante a Primeira Guerra Mundial para que lhes permitisse se estabelecer na Palestina, após que a guerra tivesse acabado. Dentro do governo britânico, havia muitos que eram simpáticos a esse movimento político. Um deles foi Arthur Balfour, o ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha. Em 2 de Novembro de 1917, ele enviou uma carta ao barão Rothschild, um líder na comunidade sionista. A carta declarou apoio oficial do governo britânico para as metas do movimento sionista de estabelecer um Estado judeu na Palestina:
"A visão do governo de Sua Majestade com favor ao estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu, vai usar os seus melhores esforços para facilitar a realização deste objetivo, sendo claramente entendido que nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos e direitos das comunidades não-judaicas existentes na Palestina, ou os direitos e estatuto político usufruídos por judeus em qualquer outro país."Três acordos conflituantesEm 1917, os ingleses haviam feito três acordos diferentes com três grupos diferentes que prometem três futuros políticos diferentes para o mundo árabe. Os árabes insistiram que ainda queriam obter o seu reino árabe que lhes foi prometido através de Sharif Hussein. Os franceses e os próprios britânicos esperavam para dividir essa mesma terra entre si. E aos sionistas deveria ser dada a Palestina como prometido por Balfour.Em 1918, a guerra terminou com a vitória dos Aliados e com a completa destruição do Império Otomano. Embora os otomanos existissem no nome até 1922 e o califado existisse em nome até 1924, toda o que fora território Otomano, ficou sob ocupação europeia. A guerra acabou, mas o futuro do Médio Oriente ainda estava numa disputa entre três lados diferentes. Qual lado ganhou? Nenhum totalmente conseguiu o que queria. No rescaldo da Primeira Guerra Mundial, a Liga das Nações (precursora da ONU) foi criada. Uma de suas tarefas era dividir as terras otomanas conquistadas. A liga elaborou ''protetorados" para o mundo árabe. Cada protetorado deveria ser governado pelos britânicos ou franceses "até ao momento em que eles fossem capazes de se governar sozinhos." A Liga foi quem elaborou as fronteiras que vemos nos modernos mapas políticos do Médio Oriente. As fronteiras foram traçadas, sem levar em conta os desejos das pessoas que viviam lá, ou ao longo de fronteiras étnicas, geográficas ou religiosas - eram verdadeiramente arbitrárias. É importante notar que, ainda hoje, as fronteiras políticas no Médio Oriente não indicam diferentes grupos de pessoas. As diferenças entre iraquianos, sírios, jordanos, etc., foram totalmente criadas pelos colonizadores europeus como um método de dividir os árabes uns contra os outros.Através do sistema de protetorado, os britânicos e os franceses foram capazes de obter os controlos que queriam sobre todo o Médio Oriente. No caso de Sharif Hussein, os seus filhos foram autorizados a governar sobre esses protetorados, sob "proteção" britânica. O Príncipe Faisal foi feito rei do Iraque e da Síria e o Príncipe Abdullah foi feito rei da Jordânia. Na prática, porém, os britânicos e os franceses tinham autoridade real sobre essas áreas. Quanto aos sionistas, eles foram autorizados pelo governo britânico para se estabelecerem na Palestina, embora com limitações. Os britânicos não queriam irritar os árabes que já viviam na Palestina, então eles tentaram limitar o número de judeus com permissão para migrar para a Palestina. Isto enfureceu os sionistas, que procuraram formas ilegais para imigrar ao longo das décadas de 1920 e 1940, vendo isto, os árabes viram a imigração como a invasão de terra que havia sido deles desde que Saladino a libertou dos cruzados em 1187.
A confusão política que a Grã-Bretanha criou no rescaldo da Primeira Guerra Mundial permanece até hoje. Os acordos concorrentes e os países subsequentes que foram criados para desunir os muçulmanos, levou à instabilidade política no Médio Oriente. O surgimento do sionismo juntamente com a desunião dos muçulmanos, na região, levou a governos corruptos e ao declínio econômico do Médio Oriente como um todo. As divisões que os britânicos instituíram no mundo muçulmano permanecem fortes ainda hoje, apesar de terem sido criadas nos últimos 100 anos. fonte: http://lostislamichistory.com/how-the-british-divided-up-the-arab-world/

terça-feira, julho 5

Mitologia germânica e nórdica



A mitologia nórdica, também chamada de mitologia germânica, mitologia viking ou mitologia escandinava refere-se a uma religião pré-cristã, crenças e lendas dos povos escandinavos, incluindo aqueles que se estabeleceram na Islândia, onde a maioria das fontes escritas para a mitologia nórdica foram construídas. Esta é a versão mais bem conhecida da mitologia comum germânica antiga, que inclui também relações próximas com a mitologia anglo-saxónica. Por sua vez, a mitologia germânica evoluiu a partir da antiga mitologia indo-europeia.
A mitologia nórdica, dos povos do norte da Alemanha e da Escandinávia, centra-se em duas linhagens de deuses que surgiram da fusão cultural dos invasores de carácter guerreiro com as tribos autóctones, essencialmente ligadas à terra pela agricultura, cerca do ano 2000 a. C.
Estas linhagens eram a dos Aesir e a dos Vanir. Deve-se, no entanto, chamar a atenção para o facto de nem os Vanir nem os Aesir terem atributos exclusivamente ligados a cada uma das características dos povos que os originaram, ou seja, nem os Vanir estavam somente vinculados à terra nem os Aesir somente à guerra.
É curioso o facto de os deuses da mitologia germânica, apesar de regerem o mundo dos homens, estarem por sua vez sujeitos a um destino, elemento central e mais importante de toda a concepção mitológica nórdica, que não podem de modo algum mudar, como se pode verificar na história de Odin.
Eram sobretudo as forças na natureza, objecto da veneração mais profunda, que se atribuíam aos deuses, assim como tudo o que se relacionasse com a guerra.
No entanto, os mitos que chegaram até hoje demonstram ter sofrido uma influência profunda dos romanos e gregos, fino-europeus, eslavos, célticos, e até mesmo da doutrina cristã quando esta se difundiu nestas regiões a partir de do ano 1000.
Mesmo assim, verifica-se que são raros os deuses que possuem características somente boas ou más; as suas histórias e os seus atributos são variados, muitas vezes vagos e indefinidos.
O mundo mitológico encarnava as forças de ordem e desordem, o Bem e o Mal, em luta constante.
Foi através de compilações que datam da Idade Média, como os Edda, que os mitos se transmitiram ao longo dos tempos. O nome de Edda deve-se provavelmente a uma cidade islandesa onde se encontravam os poetas e eruditos. O primeiro dos Edda é em verso e o segundo, elaborado por Snorre Sturlsson, é em prosa.
Há outras fontes, como os relatos de Ibn Fadlan, o historiador latino Tácito ou o bizantino Constantino Porfirogeneta, que no entanto devem ser estudadas tendo em conta a mentalidade dos povos de origem de cada um dos observadores. As runas mágicas ítalo-celtas (que curavam, destruíam, prediziam o futuro e maldiziam), nascidas no século III d. C., as sagas islandesas e os poemas dos escaldos são testemunhos importantes, apesar de muitas vezes difíceis de interpretar. Os escaldos eram os poetas que compunham poemas e canções em honra dos heróis que morriam em combate e que contavam as aventuras dos deuses, viajando pelas cidades, palácios e aldeias.
As gravuras rupestres de cerca de 1500 a. C. que se encontram em rochas na margem sul do mar Báltico e na Escandinávia indicam um culto solar que se centra num deus principal, Týr (Thor), munido de um machado, que serviria sobretudo para benzer e que mais tarde se transformaria no martelo. Aparece também aquele que será o deus Odin, um gigante com uma lança, ligado à água. Esta era um elemento extremamente importante, como se pode deduzir dos sacrifícios feitos por afogamento para obter augúrios em sítios chamados keldur.
Havia também o culto à deusa da fertilidade, Terra-Mãe, estando as rochas cobertas de figuras simbólicas do sexo feminino e masculino entre as quais se destaca o que viria a ser Freyr.
O Landnámabók ou "Livro da Colonização" da Islândia é um dos testemunhos da importância do culto das forças da natureza, mostrando como logo os primeiros seres mitológicos se identificaram com elas. É o caso dos gigantes, que representavam o Sol e são a origem dos deuses, e dos anões, que fugiam da luz e suportavam a Terra. Estes últimos estavam ligados à Terra-Mãe e à morte (como se vê por alguns dos seus nomes, Nýi ou "Lua Nova", símbolo da morte, ou Nár, "cadáver") sendo guardiães do Além. Gigantes e anões eram seres mágicos de grande habilidade manual, que possuíam o saber mais importante e secreto e guardavam os segredos das runas e da poesia. Estas características passariam depois para Odin.
A guerra é o tema que faz parte da vida quotidiana dos homens e consequentemente dos deuses na época viking (cerca de 800 a 1150 d. C.), sendo o objectivo final das suas acções e das suas vidas pois é exaltante das qualidades de bravura e nobreza. Vê-se neste facto a reflexão das qualidades vitais para a sobrevivência que povos guerreiros invasores, acima mencionados, necessitavam. No entanto, antes desta fase há aquela em que a fertilidade e a fecundidade eram vitais, sendo o rei um semideus, mais ou menos mágico, que devia ser menos combativo e vitorioso (sigrsaell) que propiciador de estações prósperas (ársaell) e de paz (fridsaell). Se tinha o infortúnio de no seu reinado não haver boas condições de sobrevivência era chacinado. Os deuses que reflectem esta preocupação são Thor, Odin, a Terra-Mãe Jörd ou Fjörgyn ("o que favorece a vida").
O mito da passagem do caos à ordem inicia-se com a saída do universo do Vazio Aberto, Ginnungagap; depois Muspellheim (terra do fogo, a sul) e o Nifleheim (terra do nevoeiro e do frio, a norte) lutam entre si e geram Ymir, que por sua vez dá origem aos gigantes. A vaca Audumla lambe uma pedra e cria os antepassados da geração de Odin, que matam Ymir, e constrói o mundo a partir das partes do seu corpo pesando-o e dividindo-o entre os deuses (Asgard), os Homens (Midgard) e os gigantes (Utgard). Depois criam-se os Homens, os palácios dos deuses, o Sol (feminino), a Lua (masculino) e as estrelas, a morada dos mortos (Helheim, para os que não morriam em combate; Valhalla, para os que morriam a combater) e todo este cosmos é unificado e ordenado pela Yggdrasil. Todos os habitantes deste universo se sabiam predestinados à destruição no dia de Ragnarok provocada pelos deuses, que faltariam à sua palavra. Seria no entanto o puro Balder, morto antes do perjúrio, que regeneraria o mundo.
Pode verificar-se através dos mitos que os homens que criaram deuses para personificarem aspectos individuais e culturais do mundo nórdico davam tanta importância à magia e à poesia como à acção combativa e às leis.
A atribuição dos nomes dos dias da semana foi muito influenciada pelos deuses; assim se justifica que em Inglaterra a quarta-feira seja chamada de Wednesday, ou dia de Wotan (Odin), e quinta-feira seja chamada de Thursday, ou dia de Thor, e na Alemanha de Donnerstag (ou Dienstag), dia de Donar (outro nome do deus Thor). Também na Alemanha a sexta-feira é o Dia de Freyr (Freitag).
No século XIX transformou-se a Canção do Nibelungo em poema nacional da Alemanha, e depois em símbolo político.
Deve-se ao compositor alemão Richard Wagner a grande divulgação e reinterpretação dos mitos nórdicos segundo a visão romântica do século XIX na ópera de 1863 Der Ring des Nibelungen (O Anel dos Nibelungos), assim como a peça de F. de la Motte- Fouqué, Der Held des Nordens (1808-1810), que também lhes deu uma nova leitura. R. Wagner baseou algumas cenas nesta última peça e liga o destino de Siegfried ao Crepúsculo dos Deuses ou o dia de Ragnarok.
O tema foi tratado por Ernst Raupach em 1834 no Tesouro do Nibelungo, onde Brunilde odeia Cremilde por esta ser mais poderosa e mais bela; por Hebel, na Trilogia dos Nibelungos (1862), onde Siegfried troca declaradamente Brunilde por Cremilde; e por Schneider em A Capa Mágica de 1951, onde Brunilde se fixa nas suas raízes pagãs e borgonhesas que devem ser exterminadas pelos Hunos e Siegfried adere ao cristianismo.
Os deuses germânicos deixaram traços no vocabulário moderno. Um exemplo desta influência é alguns dos nomes dos dias da semana. A influência deu-se após os nomes dos dias da semana serem desenvolvidos e espalhados pela língua dominante antiga, o latim, que definia os dias como Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno. Os nomes de terça-feira a sexta-feira foram substituídos completamente pelos equivalentes germânicos dos deuses romanos. Em inglês, Saturno não foi substituído, enquanto sábado foi renomeado após a definição do sabbath em alemão, e é chamado "dia da lavagem" na Escandinávia. Mais recentemente, surgiram tentativas na Europa e nos Estados Unidos de reviver a velha religião pagã sob o nome de Ásatrú ou o Heathenry. Na Islândia, o Ásatrú foi reconhecida pelo estado como uma religião oficial em 1973, que legalizou suas cerimónias da união, nomenclatura dada às crianças e outros tipos de cerimoniais. É também reconhecida como uma religião oficial e legal na Dinamarca e na Noruega, apesar de recente.


domingo, maio 29

O BANCO DE GORRINGE (video)



Uma história que tem umas dezenas de anos mas que por motivos político-económicos está muito actual. Vão ver porquê:  
No tempo em que a minha vida era habitualmente distribuída pela actividade profissional e, intensivamente todos os fins-de-semana no mergulho, quando o mar deixava, normalmente a partir do porto de Sesimbra, uma vezes em barco próprio outras com grupos habituais em traineiras alugadas, ocorreu um contacto interessante. Estabeleci conhecimento e amizade com o proprietário e mestre de uma traineira de Sesimbra de pesca de alto mar, que tinha sido recentemente subsidiada pela União Europeia. Um luxo de barco, novo, com todo o equipamento de navegação e instalações para a tripulação, o mais moderno que havia naquela altura. De conversa informal passou a um projecto muito interessante para alguns daqueles que comigo visitavam o fundo do mar e que faziam parte do grupo semanal da actividade submarina. Uma saída com um grupo seleccionado para mergulharmos no Banco de Gorringe que se localiza a SW do Cabo de São Vicente (Algarve), na fronteira convergente entre a placa Africana e Euro-Asiática, entre o continente e a Ilha da Madeira. Uma oportunidade única porque a embarcação estava à espera das vistorias e licenças para de lançar na pesca.  


O mestre conhecia o Banco de Gorringe e com toda aquela aparelhagem, topo-de-gama, era fácil lá chegar e voltar em dois ou três dias de viagem, com a ajuda de Neptuno.
Estabelecemos o preço constituímos o grupo com fotógrafos submarinos, um médico mergulhador, barcos de apoio insufláveis, compressores, licenças que eram quase passaportes das autoridades marítimas e fixámos o dia da partida e da chegada que ficou prevista em sete dias para podermos conhecer alguns dos recantos mais bonitos daquele fundo submarino. Maravilha em perspectiva.


O Banco de Gorringe  é uma área do Oceano Atlântico situada a cerca de 120 milhas marítimas a oeste sudoeste do Cabo de São Vicente, caracterizada por um maciço montanhoso submerso orientado na direcção nordeste sudoeste e com cerca de 200 quilómetros de comprimento por 80 de largura. Destacam-se dois cumes: o Gettysburg e o Ormonde.


Estava tudo pronto e ansiosamente preparado para aquele que seria a melhor aventura de prospecção submarina para os amantes do mundo do silêncio. Aziago estava o projecto.
A cerca de uma semana da partida recebo um telefonema do mestre do barco a dar-me conta que já não podíamos ir porque a União Europeia lhe dava mais dinheiro agora, que aquele que lhe havia dado antes, a fundo perdido, pelo custo da embarcação, mas agora para a destruir, cujo prazo era de uma semana. Mas isso é verdade...? perguntei, será possível que esteja tudo louco?! Fui a Sezimbra e confirmei o facto: 
Todas as embarcações subsidiadas pela UE estavam a ser destruídas com a certificação das autoridades. Sob os auspícios de "governos" impróprios estavam a destruir todas as bases produtivas. Não foi só com as pescas, aconteceu com a agricultura, pagavam para não colher cearas, abater oliveiras; foi assim também com as industrias, as pequenas e médias empresas que perante tantas dificuldades impostas e impostos encerraram e despediram, como encerram ainda aos milhares, mas sempre a favor dos grandes espaços comerciais, hipermercados de consumo, improdutivos. Portugal é um país florestal da Europa, diziam os espertos. Durante o verão as florestas ardiam... Para quem não tem memória curta foi assim.  

          

segunda-feira, maio 16

APELO NACIONAL



APELO NACIONAL "PORTUGAL"

Sem certeza sobre se assim é ou não, passo:

REPASSE este Apelo Nacional


Faça aquilo que os políticos, por razões óbvias, não  podem recomendar sequer, mas que individualmente se pode fazer:

Proteja a nossa economia

Para isso:

1. Compre preferencialmente produtos fabricados em  Portugal, no supermercado (carnes,  peixe, legumes, bebidas, conservas).
Trocar, temporariamente, a McDonalds, ou outra cadeia de fast food, pela tradicional tasca portuguesa. Trocar Coca Cola à refeição, por uma água, um refrigerante, ou uma cerveja, fabricada em Portugal.

2. Adie por 6 meses a 1 ano todas as compras de produtos estrangeiros, que tenha planeado: automóveis,

outros electrodomésticos, produtos de luxo, telemóveis, roupa e calçado de marcas importadas, férias fora do país, etc., etc...


O desafio é durante seis meses a um ano evitar comprar produtos fabricados fora de Portugal, em cada acto de compra verificando as etiquetas de origem.
Desta forma estaremos a substituir as importações que nos estão a arrastar para o fundo e apresentaremos melhores resultados a nível de indicadores de crescimento económico e redução de desemprego. Há quem diga que bastaria que cada português substituísse em 100 euros mensais as compras de produtos importados por produtos fabricados no país, para que o nosso problema de falta de crescimento económico aliviasse.
Representaria para a nossa indústria, só por si, um acréscimo superior a 12.000.000.000 de euros por ano,

ou seja uma verba equivalente à da construção de um novo aeroporto de Lisboa e respectivas acessibilidades, a cada 3 meses (SERA ASSIM??????????????????)

E´ um acto de cidadania.

Os nossos vizinhos Espanhóis há muitos anos que fazem isso. Quem já viajou com Espanhóis sabe que eles, começam
logo por reservar e comprar as passagens, ou pacote, em agência Espanhola, depois, se viajam de avião, fazem-no na Ibéria, pernoitam em hotéis de cadeias exclusivamente Espanholas (Meliá, Riu, Sana ou outras), desde que uma delas exista, e se encontrarem uma marca espanhola dum produto que precisem, é essa mesma que compram, sem sequer comparar o preço (por exemplo em Portugal só abastecem combustíveis Repsol, ou Cepsa). Até as empresas se comportam de forma semelhante --as multinacionais Espanholas a operar em Portugal, com poucas excepções, obrigam os seus funcionários que se deslocam ao estrangeiro a seguir estas preferências e contratam preferencialmente outras empresas espanholas, quer sejam de segurança, transportes, montagens industrias e duma forma geral de tudo o que precisem, que possam cá chegar com produto, ou serviço, a preço competitivo, vindo do outro lado da fronteira. São super proteccionistas da sua economia! Dão sempre a preferência a uma empresa ou produto Espanhol.

Passe este texto, para chegarmos atingir o maior número de pessoas.

quinta-feira, maio 5

A PAPA MULHER – JOÃO VIII OU JOANA



Leão IV, monge beneditino foi consagrado papa em 10 de Abril de 847. 
Roma, 17 de Julho do ano da graça de 855, Leão IV, papa havia oito anos, entregava a alma a Deus. Para substituí-lo no trono de São Pedro, os cardeais escolheram um clérigo tão piedoso quanto sábio, um certo João, o Inglês, assim chamado por causa da origem da sua família. O acontecimento era importante; por um lado, um estrangeiro tornava-se papa, o que não era habitual; por outro, havia sido escolhido por unanimidade, o que era ainda mais raro.
João VIII, monge do mosteiro de São Martinho, em Roma, era pouco conhecido. Tendo chegado à Cidade Eterna alguns anos antes, havia-se destacado pela grande discrição e pela aura de uma vida dedicada aos estudos e à fé. E então, quando no século IX o papado ficou entregue às mãos das poderosas famílias romanas, ele tinha a vantagem de não pertencer a nenhum clã, de não tomar o partido de nenhum dos lados. A sua vida exemplar e o que dele se sabia apresentavam-no mais como um intelectual devoto do que como um político.
João VIII era um intelectual. No mosteiro de São Martinho, reunia em torno da sua cátedra um auditório cada vez mais importante. A sua eloquência, o seu amor pela teologia e pelas ciências, tanto as sagradas quanto as profanas, tinham-no levado a discussões públicas com os maiores eruditos da época. Ele nunca foi surpreendido, ou vencido. Ganhou o título de sábio dos sábios. A sua fama ultrapassou, assim, os muros do mosteiro.
Mas tão logo foi eleito, o quase santo não correspondeu às esperanças nele depositadas. O povo de Roma decepcionou-se. De que servia um santo no trono de Pedro, se ninguém se podia aproximar dele, ou mesmo vê-lo?
Na verdade, João VIII tornou-se ainda mais discreto do que já era anteriormente. Passou um ano, e depois outro, sem sair do Vaticano. No entanto, ele não era inactivo: ergueu igrejas e altares, compôs prefácios para as missas e instituiu a quaresma; devolveu o ceptro e a coroa imperial a Luís II, filho do velho imperador Lotário, que se havia retirado para um convento. Tudo isso sem nunca aparecer em público.
Mas no início do ano 858 a sua presença fez-se necessária. Calamidades naturais abateram-se sobre as cidades e os campos. O rio Tibre transbordou, houve um tremor de terra e nuvens de gafanhotos destruíram as colheitas. A análise que a mentalidade da época fazia das catástrofes naturais era de analogia com as pragas do Egipto. O pontífice, aquele que “fazia a ponte” entre a humanidade e Deus, precisava intervir.
Em desespero de causa, João VIII, convocado pelos cardeais, aceitou conduzir a procissão das Súplicas – destinada a fazer chover -, que devia acontecer no dia da Ascensão.
Na manhã desse dia, os sinos dobraram, e toda a população estava reunida para a festa, ao longo do itinerário previsto, que levava do Vaticano à igreja de São João de Latrão. Mesmo antes que o cortejo partisse do palácio pontifical, o entusiasmo estava no auge.
Enquanto milhares de vozes encobriam os salmos e as súplicas pronunciadas pelo papa, o cortejo cumpria as principais etapas, pelas ruas de Roma. O sol, elevando-se no céu, fazia-se mais e mais ardente, e as primeiras fileiras da multidão e dos cardeais começaram a notar que o rosto do papa se alterava, de vez em quando. Em seguida, uma careta de dor contínua marcou a sua face. A preocupação tomou conta dos cardeais. Mais ainda porque o papa deixou de cantar e gemia surdamente. Os membros da Cúria perguntavam se não seria melhor interromper a cerimónia.
Mas não houve tempo de responder. Subitamente, o papa soltou um grito, caiu da mula que o carregava, seguro somente por dois cardeais que estavam ao seu lado. O sumo pontífice dobrou-se sobre si mesmo, apertando o ventre e desmaiando. A multidão foi sacudida pela surpresa, os gritos e o choro substituíram os cantos religiosos. João VIII foi levado para o interior da igreja de São Clemente.
Lá dentro, ao mesmo tempo que se tentava descobrir a razão daquela dor no baixo-ventre, ao erguer-se as vestes do papa uma horrível revelação saltou aos olhos dos que ali estavam: o papa era uma mulher! Aterrorizados, todos fizeram o sinal da cruz. A cólera começou então a substituir o estupor. Mas o escândalo não terminava ali. O papa João VIII estava dando à luz, conspurcando as roupas de cerimónia e o local sagrado da igreja.
A inacreditável notícia espalhou-se. Rapidamente ficou difícil conter a multidão, que tentava massacrar ali mesmo aquela que havia ousado desprezar o cargo mais importante da cristandade. Finalmente sabia-se quem era a responsável pelas calamidades enviadas pelo Senhor. João VIII, a papisa, morreu de dores de parto. A criança, uma menina, nasceu morta.
Todos se puseram de acordo para encontrar um culpado. No caso, o culpado foi João, o Inglês, doravante mais adequadamente chamado de Joana. A Cúria decidia não considerar aquela aventureira a única culpada. Providenciou-se uma diligência de investigação – o que se deveria ter feito antes – e se descobriu toda a sua história.
Aos 18 anos, Joana partira com um amigo para Atenas – alguns textos falam de amante – para ali estudar grego e filosofia, passando uma primeira vez por Roma. Por motivos de conforto na viagem, vestiu roupas masculinas. Depois da Grécia, ficou na Inglaterra, terra dos seus antepassados. Como o seu companheiro morreu, ela voltou a Roma, capital do mundo cristão, e, antes como agora, principal centro da cultura religiosa. Todavia, ela tinha conservado as roupas masculinas, consciente das vantagens que podia auferir. Na verdade, graças àquelas roupas Joana foi apresentada aos círculos mais restritos, reservados aos doutos eruditos da cristandade, e introduzida nos mosteiros, que as mulheres não tinham o direito de frequentar. Alguns santuários eram efectivamente proibidos, e elas só podiam venerar as relíquias dos santos, ali conservadas, uns poucos dias por ano. Antes dela, outras mulheres também tinham evitado a proibição graças a um disfarce. Foi assim que, por uma discrição constante e uma sede de trabalho intelectual, Joana pôde, nos primeiros tempos, integrar o mosteiro de São Martinho em Roma, e depois, finalmente, ser eleita papa.
Permanecia o mistério da gravidez. Como explicar que ela estivesse grávida, ela que sempre tinha sido de uma pureza e de costumes irrepreensíveis? Bocage, muitos séculos depois desses acontecimentos, indicou que, cedendo à licenciosidade que reinava em Roma, Joana havia-se deixado seduzir por Lamberto da Saxônia, embaixador naquela cidade. Pergunta-se se ele, ao querer seduzir um papa, se viu de repente com uma jovem mulher nos braços, ou se teria antes descoberto a mulher por detrás do papa. A história não fala directamente, mas ainda assim revela bastante sobre a licenciosidade sexual da corte pontifical de então: alguém ambicioso podia empregar todos os meios para atingir os seus objectivos. Lamberto da Saxônia, por exemplo, não assumindo absolutamente o papel de pai da filha do papa, eclipsou-se judiciosamente, antes que o escândalo estourasse. E foi esse escândalo que se tornou de conhecimento geral no dia da Ascensão em 858.
As primeiras fontes que contaram a história da papisa Joana datam de quatro séculos depois dos acontecimentos. Pois se certos manuscritos falam deles, como o de Anastásio, o Bibliotecário (século IX), ou as crónicas de Martin le Scot, monge de Fulda (século XI), e de Sigebert de Gembloux (século XII), assim foi somente nas versões dos séculos XIV e XV. Os manuscritos originais não dizem uma única palavra a esse respeito. Na realidade, o testemunho escrito mais antigo sobre a papisa consta na “A crônica universal de Metz,” redigido por volta do ano 1250 pelo dominicano Jean de Mailly.
Segundo ele, o episódio aconteceu no final do século XI. Ele o cita como um boato: “A verificar. Naqueles anos, houve um certo papa, ou melhor, uma papisa, pois era mulher; disfarçando-se de homem ela se tornou, graças à honestidade de seu carácter, notário da Cúria, em seguida cardeal, e finalmente papa (…)”. Esse texto, por sua vez, está reproduzido no Le traité des divers sujests de prédication, do dominicano Étienne de Bourbon, escrito por volta de 1260. Depois de Étienne de Bourbon, a história foi ganhando detalhes. Assim, na sua Crónica dos papas e imperadores, o dominicano Martinho, o Polonês, diz: “Depois desse Leão, João, tido como inglês, mas na verdade originário de Mogúncia, reinou 2 anos, 7 meses e 4 dias. Morreu em Roma e o papado ficou vago por um mês. Pelo que se diz, ele era uma mulher. (…) Ele não foi inscrito na lista dos santos pontífices, em razão da não conformidade de sexo”. Essa crónica teve um sucesso extraordinário. Mais de 150 manuscritos chegaram até nossos dias.
Com a divulgação desses relatos, a crença na história da papisa foi confirmada. Em 1403, quando Jean Gerson pregava diante do papa Bento XIII, em Tarascona, ele citou-a como personagem oficial da história. Ao indicar, no Concílio de Constância, que ela havia ocupado o trono pontifical durante dois anos, Jan Huss não foi desmentido por ninguém. Assim como o cardeal Juan de Torquemada, tio do famoso inquisidor, quando recordou a sua história, na sua Súmula para a Igreja, em 1561.
Essa versão só foi alterada no fim do século XVI. Clemente VIII conseguiu do grão-duque da Toscana que o retrato da papisa fosse apagado da catedral de Siena, onde há representações de vários papas. Foi na época da Contra-Reforma católica que as dúvidas sobre a existência da papisa começaram. Concomitantemente ao fato de os protestantes explorarem essa história, para mostrar a depravação do clero católico em todas as épocas.
Para dar uma resposta a esses polemistas, os católicos transformaram-se em críticos históricos. O primeiro a fazer isso foi sem dúvida Jean l’Aventin, que nos seus Anais bávaros refutava o que ele chamava de lendas sobre a papisa. Os eruditos católicos, por sua vez, afirmavam que era materialmente impossível situar João VIII, nome oficial e registo do exercício do papado por Joana, na data em geral atribuída pela lenda. Se um João VIII havia realmente existido, não havia qualquer lugar para a papisa na cronologia dos papas, como confirmava o Liber Pontificalis, a solidíssima historiografia dos papas.
De Onofrio Panvivio a Florimon de Rémond, todos os eruditos negaram a lenda. No século XVIII, o golpe mortal foi dado por Bayle, no seu Dicionário histórico e crítico. Os filósofos do Iluminismo tampouco acreditavam. E se os opositores do clero, do século XIX, tentaram relançar a lenda, tampouco tiveram sucesso.
Ivan Matagon é especialista em história medieval. O verdadeiro João VIII: dez anos de reinado, João VIII existiu realmente, mas à excepção do nome não tínhamos nada a ver com a papisa. Sagrado papa no final de Dezembro de 872, ele sucedeu a Adriano II. Palaciano, foi por muito tempo arquidiácono (chefe dos diáconos responsável pela colecta de esmolas) e revelou-se tão ponderado como económico. O seu cuidado com as finanças permitiu que ele enviasse tropas contra os sarracenos e promovesse grandes obras em Roma, cidade que era então um vasto campo de ruínas, com as antigas construções ainda em pé. Assim, foi sob seu reinado que as paredes do Vaticano foram reforçadas. João VIII  morreu em 15 de Dezembro de 882, sem dúvida envenenado por um clérigo da Cúria.
O ritual de renunciarem o sexo papal.
Depois do incidente que se seguiu à eleição involuntária de uma mulher para o trono de Pedro, os clérigos do Vaticano tiveram a ideia de submeter o eleito a um ritual que certificasse o sexo do futuro papa. No momento da investidura do novo pontífice, ele tinha que se sentar numa cadeira semelhante a um assento sanitário que o obrigava a abrir as pernas. Um diácono assegurava-se então da presença dos órgãos genitais masculinos, pronunciando a frase “Habet duos testiculos et bene pendentes”. Ainda existem duas dessas cadeiras. Uma está no Vaticano, a outra, roubada, como tantos outros tesouros por subordinados de Napoleão quando da campanha da Itália, está no Museu do Louvre.
De Alexandre Jardim
Publicado no Recanto das Letras em 29/04/2007.

sexta-feira, abril 29

A SOCIEDADE NO TEMPO DOS DESCOBRIMENTOS



A sociedade portuguesa do princípio do século XV caracteriza-se, sobretudo, por uma forte estratificação social. A divisão da sociedade em ordens, cujo topo era ocupado pela nobreza, gerava uma acentuada desigualdade social pela diferenciação entre estes (os grandes, os fidalgos e os cavaleiros) e os que não possuíam cavalo e meios de combate na guerra, ou que exerciam uma profissão mecânica (escudeiros que surgem no limiar do grupo da aristocracia sendo condição mais baixa que a de cidadão, oficiais mecânicos, lavradores e gente baixa, ou seja, os peões). O grande fosso que separava os diferentes estratos tornava-se bem presente quando se tratava da aplicação de penas e castigos, consoante o crime fosse praticado por um nobre ou por um peão. A diferença de estatuto social era também uma diferença no estatuto jurídico. A materialização dessa distanciação passava também pelo tipo de roupa que cada estrato usava, (veja-se a pragmática sobre as sedas de 1535), e também pela simbologia associada ao vestir, nomeadamente no tocante aos judeus e mouros, obrigados a usar cosida na roupa uma estrela de David vermelha ou um crescente amarelo, respectivamente.
Os nobres gozavam então de inumeráveis prerrogativas possíveis pela sua posição no topo da hierarquia. Eram os detentores dos cargos públicos mais importantes e estavam, geralmente, ligados à função militar, pois tinham possibilidade de possuir cavalo e armamento. Mesmo aos nobres que não tinham dinheiro para suportar os encargos do serviço militar em pé de igualdade com os seus pares eram-lhes concedidos lugares de importância no campo de batalha. Relativamente aos encargos fiscais também saíam beneficiados em comparação com os restantes estratos sociais.
As relações sociais e a rígida estrutura eram regulamentadas pelo bem enraizado conceito da superioridade do estatuto mais elevado que acabaria por afectar os comportamentos. Quem não pertencesse aos estratos hierarquicamente superiores acabaria, inevitavelmente, por revelar mau governo e mau comportamento. Os cargos reservavam-se a pessoas honradas, com virtudes e uma vida de acordo com esse estado. Esta era uma forma de justificar o facto de se vedar o acesso de gente de condição baixa aos cargos públicos. O elitismo dos cargos ficou patente na impossibilidade de os cristãos-novos acederam àquelas funções e ao procedimento da limpeza de sangue a que foram sujeitos os funcionários. Fomentava-se a desigualdade e a perturbação na ordem criada era sempre motivo de preocupação. O serviço na corte era como nas universidades: proporcionava aos filhos segundos o ingresso nos estudos, o que se traduzia depois numa ascensão social.
O outro estrato social que detinha uma grande importância na sociedade era o clero. Aliás, o clero era considerado a primeira ordem porque era o servidor e o mediador para com Deus. Desde sempre auferiu de grandes privilégios. Detinha uma hierarquia interna própria, imunidades, foro privativo e leis próprias que o afastava definitivamente da esfera laica e lhe proporcionava uma confortável posição na hierarquia social. Os cargos eclesiásticos eram disputadíssimos, principalmente os das colegiadas e cabidos, pois a sua ocupação significava um grande aumento dos proventos. Chegavam a ser comprados e vendidos ("comendas") ou então passavam de pais para filhos. Adivinha-se facilmente a penetração no estado eclesiástico de valores que eram inerentes à nobreza. Reflecte-se a hierarquização laica num acto tão natural como a obediência. Era difícil de contornar, e nem sempre aceite com agrado, a situação em que um membro do clero proveniente de estrato nobre tivesse que obedecer a outro de estrato inferior, embora as regras louvassem este tipo de atitude cristã. Aponta-se geralmente um acentuado relaxamento dos costumes entre os religiosos, quer regulares, nomeadamente nas ordens femininas, quer seculares, estado que se tenta combater após o Concílio de Trento.
Com dois estratos dominantes a servir de regra ao resto da sociedade é importante salientar que a sobrevivência da grande maioria da população dependia de relacionamentos em comum, isto é, a boa integração do indivíduo dependia da sua inserção no sistema corporativo. Pertencer a uma ordem ou corpo de ofício era uma forma de defender os seus interesses sociais e económicos, mas também um modo de definir o seu estatuto na globalidade da sociedade, que se mantém num sistema tripartido: oratores (que rezam), belatores (que combatem) e laboratores (que trabalham).
A estrutura social viria a sofrer algumas transformações mercê do crescimento populacional que se verificou em Portugal comum nos restantes países europeus. A partir da segunda metade do século XV verificou-se, um pouco por todo o lado, uma lenta recuperação da crise demográfica que assolou a Europa. Um bom indicador da crise em Portugal foi a dificuldade da Coroa no povoamento dos locais descobertos como foi o caso dos Açores e da Madeira.
Este crescimento da população verificou-se de igual modo nas cidades e nos campos. Este facto torna-se claro pela análise do primeiro censo à população, efectuado por ordem de D. João III, entre os anos de 1527 e 1532, o qual denota um ritmo de crescimento da população, colocando Portugal ao nível de outros países europeus. Por comparação com um outro censo efectuado no reinado de D. Manuel, em 1495, incidindo na região da Beira, houve de facto um grande aumento da população. Transparece desta contagem uma densidade populacional muito acentuada no Norte do País, sobretudo na região de Entre Douro e Minho, permanecendo fracamente povoado o resto do território.
As cidades cresciam, principalmente as do Norte - Viana, Braga, Guimarães, Porto e Aveiro -, mas Lisboa mantinha a supremacia, infinitamente mais populosa do que qualquer uma das outras cidades, logo seguida do Porto, que destronou Évora. O crescimento das cidades foi, em grande medida, motivado pelas migrações de indivíduos que das suas aldeias chegavam em grande número às cidades e vilas, procurando novas oportunidades. Naturalmente Lisboa era a cidade eleita. O crescimento populacional viria a estagnar em meados do século XVI devido à saída da população que ia povoar os territórios recém-descobertos.
Paralelamente ao crescimento populacional, verificou-se uma recuperação na agricultura e no comércio que imprimiu uma actividade renovada de trocas comerciais das quais já faziam parte os produtos das ilhas.
A conjugação de factores - recuperação populacional e económica e política expansionista - provocou uma mobilidade social ascendente. A economia passava a ter outra feição motivada pela crescente mercantilização devida ao maior consumo de produtos. Este fenómeno verifica-se a partir do último quartel do século XV e os mais beneficiados foram os lavradores e os oficiais mecânicos.
O sintoma da efectiva existência de mobilidade social está expresso no pedido de promulgação de leis sumptuárias, de modo a pôr termo à mobilidade ascendente. Este pedido foi formalizado pela elite do terceiro estado, que receava a concorrência de pessoas que eventualmente seriam elevadas a maiores ou semelhantes dignidades. Defendiam que os filhos de mesteiral deveriam permanecer mesteirais, o mesmo acontecendo com os filhos de lavradores. A razão destes pedidos reside no perigo que constituía a possibilidade que os oficiais tinham de entrar ao serviço da Casa Real, fruto da arrecadação de fundos só possível com a melhoria das condições económicas verificadas no século XV. Por isso, a perspectiva de nobilitação de estratos inferiores preocupava algumas camadas da sociedade, uma vez que estamos perante uma sociedade fortemente hierarquizada.
Se a ultrapassagem das crises económica e demográfica fez alterar os componentes dos estratos sociais, também a guerra foi um forte aliado da mudança. A nobilitação através de feitos militares tornara-se mais frequente a partir das campanhas de Ceuta, Arzila e Tânger.
A sociedade mantinha-se tripartida sem lugar a uma definição clara do estatuto dos mercadores no seio dos três estados, mas percebeu a importância do trato mercantil e dos benefícios que daí advinham. Tratados e considerados como "gente limpa", estavam sem dúvida acima dos oficiais mecânicos e dos mercadores a retalho. Os mercadores de grosso trato, cujos filhos também se introduziram na Casa Real prestando serviço militar à sua custa nas praças de África, também foram atingidos pelo irreprimível movimento de ascensão.
A necessidade de implantar e seguidamente manter o bom funcionamento da estrutura do Estado, quer na metrópole, quer no ultramar, fez com que não só se mantivessem como fomentassem as redes de clientelas. A ocupação de funções cada vez mais complexas no âmbito da justiça, da guerra e da fazenda requeria um elevado número de pessoas ao serviço do Estado. É precisamente para resolver este problema que D. Afonso V promove a criação de novos títulos nobiliárquicos. É provável que também tenha sido iniciativa deste rei a criação dos chamados foros ou filhamentos da Casa Real, após a conquista de Arzila em 1471. Através deste procedimento, foram elevadas à condição de fidalgo grande número de pessoas provenientes de estratos mais baixos, tornando-se servidores "de criação" do rei com os privilégios inerentes e a inscrição do seu nome nos livros régios de matrícula. Durante o governo de D. Manuel, o filhamento da Casa Real estava já perfeitamente estabelecido com o acrescento de mais duas ordens de nobreza relativamente ao reinado de D. Afonso V: moço fidalgo, com possibilidades de ascender a fidalgo cavaleiro; moço de câmara, que poderia ascender a cavaleiro fidalgo; e, por último, moço de estribeira, que se poderia tornar cavaleiro raso ou escudeiro. Esta disposição da ordem só viria a ser remodelada com D. Sebastião no Regimento do Mordomo-mor e das moradias, de 1572: o moço fidalgo ascende a fidalgo escudeiro e depois a fidalgo cavaleiro (primeira ordem) e o moço de câmara passaria pelo estado de escudeiro-fidalgo antes de alcançar o título de cavaleiro-fidalgo (segunda ordem). Os filhamentos revestiram-se de especial importância no ultramar, pois os moços fidalgos e moços de câmara iam para esses territórios desempenhar funções ligadas ao serviço militar e à administração da fazenda. Por vezes eram atribuídos lugares de feitores ou de escrivães a moços de câmara, o que motivava inúmeras queixas devidas à sua inexperiência em questões inerentes ao trato comercial. Muitas vezes as funções militares e comerciais não se encontravam separadas.
Num período extremamente favorável à mobilidade social ascendente, assume particular importância o estatuto de nobre, ainda mais quando se interessa pelo trato comercial. Nos finais do século XV encontrava-se a nobreza portuguesa escalonada da seguinte forma: grandes, fidalgos, cavaleiros e escudeiros. Neste conjunto os que detêm a supremacia são os fidalgos de solar, senhores de um título nobiliárquico extensível aos descendentes, garantindo uma perpétua limpeza de sangue. Numa sociedade de ordens tornava-se notória a superioridade conferida pelo título ostentado pelos grandes senhores. O fidalgo tem, no entanto, uma posição dúbia pois poderia tratar-se de um fidalgo de linhagem ou de um fidalgo da Casa Real. O mesmo se passava com a categoria de cavaleiro. Os escudeiros faziam a marca de fronteira entre o segundo e o terceiro estados do reino. Promovia-se assim a forte hierarquização que caracterizou a corte durante este período.
Um facto de salientar nesta época é o da ligação do nobre à vida económica através do grande comércio já que o comércio a retalho e os ofícios mecânicos lhe estavam terminantemente proibidos. A simbiose entre dois mundos tão diversos, tornando-os indistintos, foi fundamental para a manutenção e gestão do império durante o século XVI. Ao serviço do rei e do Estado, o nobre, que se torna mercador em África e na Índia, quando regressa coloca-se imediatamente no seu papel de nobre, repudiando o de mercador. Muitos casos se podem apontar como paradigmas de sucesso de nobres que se dedicam ao grande trato e à alta finança. A política régia era a de colocação de nobres em cargos ligados à fazenda, de modo a conferir um maior prestígio a um estado imperial.
A partir do último terço de quinhentos, a situação é já contrastante com a que se vivia no século XV. Criaram-se mecanismos de entrave à mobilidade social ascendente. As principais vítimas foram os oficiais mecânicos e cristãos-novos que, em nome da limpeza de sangue destes últimos, viram cortado o acesso a cargos municipais, às ordens militares, às cátedras, aos cargos eclesiásticos, à magistratura, etc. Estas restrições tornaram-se generalizadas no início do segundo terço do século XVII.
Para além da população cristã, que vivia sob este regime de classificação por ordens, havia que contar com outras etnias tais como os mouros, que parecem constituir o maior número relativamente a outras minorias. Tinham o seu lugar próprio nas cidades designado mouraria em grupos com considerável número de elementos, ou também se encontravam disseminados pelos campos. O seu número foi declinando.
Os judeus viviam no País em número significativo cobrindo todo o território nacional, ocupando igualmente locais separados nas cidades denominados judiarias, que, devido ao seu vincado carácter comercial, situavam-se no centro do aglomerado populacional. Ao contrário dos mouros, verificou-se um crescimento da população judia beneficiando das políticas levadas a cabo por D. João II, que os deixou permanecer no território durante um determinado período de tempo mediante o pagamento de uma taxa, e por D. Manuel, que fomentou a sua fixação após a expulsão levada a cabo pelos reis católicos (1492) criando a instituição de cristão-novo. Com D. João III e a implantação da Inquisição, em 1547 (data em que é autorizada pelo Papa, pois já existia desde 1536), os cristãos-novos irão sofrer um rude golpe na sua estrutura, que motivará a sua saída de Portugal. Manteve-se a ordem social com a Inquisição e limpou-se o sangue dos que ocupavam ou pretendiam ocupar lugares de destaque.
Fruto da expansão portuguesa, o contingente de escravos africanos e asiáticos no país ganhou nova expressão, particularmente em Lisboa. Constituíam uma mão de obra que substituiu a que saía do país atraída pelo enriquecimento proporcionado pela exploração de territórios além-mar. Eram usados também em trabalhos nos territórios ultramarinos (Madeira, Cabo Verde, Guiné, Brasil). Se muitos criaram raízes como trabalhadores em todas as actividades servis e penosas, muitos outros foram posteriormente vendidos para Espanha ou para a Europa. Alguns acabariam por alcançar a alforria, mas não deixavam, por isso, de ser discriminados.
Portugal, que atravessava um período brilhante da sua História, constituiu um atractivo para estrangeiros se estabelecerem, embora tal situação não se traduzisse em números significativos. Na sua maioria homens de comércio com interesses económicos em Portugal e também homens de letras e membros do clero. O maior cômputo de estrangeiros residentes em Portugal recai sobre os espanhóis, mas também poderíamos encontrar nas nossas cidades italianos, flamengos, ingleses, franceses e alemães.

  O porto marítimo de Villa Medici -1638, de Claude Lorrain.

sábado, abril 23

A DEMOCRACIA E OS BURROS



ENVIADO POR IVO MARTINS
 A Ditadura Democrática Portuguesa elimina os que pensam e promove os Burros. (peço desculpa ao animal, de que tenho muito carinho e admiração)

Este é o maior fracasso da democracia portuguesa

POR CLARA FERREIRA ALVES
Jornalista

Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo, dizendo ter formação, que nunca adquiriram, (Olá! camaradas Sócrates...Olá! Armando Vara...), que usem dinheiros públicos (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público acrítico, burro e embrutecido.

Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, em governação socialista, distribui casas de RENDA ECONÓMICA - mas não de construção económica - aos seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de gratidão, passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a "prostituir-se" na sua dignidade profissional, a troco de participar nos roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada, mas mais honesta que estes bandalhos.
Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como O VERDADEIRO PODER. Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos políticos e pelo poder judicial. Agora continua a ser o VERDADEIRO PODER mas senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido.

Para garantir que vai continuar burro o grande "cavallia" (que em português significa cavalgadura) desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação das Novas Oportunidades.
Gente assim mal formada vai aceitar tudo, e o país será o pátio de recreio dos mafiosos.

A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca.
Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção.

Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros.

Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado.
Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.

Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.

Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou, nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.

Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituamo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal, e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura.

E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.

Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?

Vale e Azevedo pagou por todos?
Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?
Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?

Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?

Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?

Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.

No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém?

As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância.
E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou?

E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente "importante" estava envolvida, o que aconteceu? Alguns até arranjaram cargos em organismos da UE.

Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.
E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?

E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?
O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.
E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?

E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.

Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento.
Ninguém quer saber a verdade.

Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.
Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.

Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade.

Este é o maior fracasso da democracia portuguesa

Clara Ferreira Alves - "Expresso"



sábado, abril 2

PORQUE SILENCIAM A ISLÂNDIA?



(Estamos neste estado lamentável por causa da corrupção interna - pública e privada com incidência no sector bancário - e pelos juros usurários que a Banca Europeia nos cobra.
Sócrates foi dizer à Sra. Merkle - a chanceler do Euro - que já tínhamos tapado os buracos das fraudes e que, se fosse preciso, nos punha a pão e água para pagar os juros ao valor que ela quisesse.
Por isso, acho que era altura de falar na Islândia, na forma como este país deu a volta à bancarrota, e porque não interessa a certa gente que se fale dele)
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Não é impunemente que não se fala da Islândia (o primeiro país a ir à bancarrota com a crise financeira) e na forma como este pequeno país perdido no meio do mar, deu a volta à crise.
Ao poder económico mundial, e especialmente o Europeu, tão proteccionista do sector bancário, não interessa dar notícias de quem lhes bateu o pé e não alinhou nas imposições usurárias que o FMI lhe impôs para a ajudar.
Em 2007 a Islândia entrou na bancarrota por causa do seu endividamento excessivo e pela falência do seu maior Banco que, como todos os outros, se afogou num oceano de crédito mal parado. Exactamente os mesmo motivos que tombaram com a Grécia, a Irlanda e Portugal.
A Islândia é uma ilha isolada com cerca de 320 mil habitantes, e que durante muitos anos viveu acima das suas possibilidades graças a estas "macaquices" bancárias, e que a guindaram falaciosamente ao 13º no ranking dos países com melhor nível de vida (numa altura em que Portugal detinha o 40º lugar).
País novo, ainda não integrado na UE, independente desde 1944, foi desde então governado pelo Partido Progressista (PP), que se perpetuou no Poder até levar o país à miséria.
Aflito pelas consequências da corrupção com que durante muitos anos conviveu, o PP tratou de correr ao FMI em busca de ajuda. Claro que a usura deste organismo não teve comiseração, e a tal "ajuda" ir-se-ia traduzir em empréstimos a juros elevadíssimos (começariam nos 5,5% e daí para cima), que, feitas as contas por alto, se traduziam num empenhamento das famílias islandesas por 30 anos, durante os quais teriam de pagar uma média de 350 Euros / mês ao FMI. Parte desta ajuda seria para "tapar" o buraco do principal Banco islandês.
Perante tal situação, o país mexeu-se, apareceram movimentos cívicos despojados dos velhos políticos corruptos, com uma ideia base muito simples: os custos das falências bancárias não poderiam ser pagos pelos cidadãos, mas sim pelos accionistas dos Bancos e seus credores. E todos aqueles que assumiram investimentos financeiros de risco, deviam agora aguentar com os seus próprios prejuízos.
O descontentamento foi tal que o Governo foi obrigado a efectuar um referendo, tendo os islandeses, com uma maioria de 93%, recusado a assumir os custos da má gestão bancária e a pactuar com as imposições avaras do FMI.
Num instante, os movimentos cívicos forçaram a queda do Governo e a realização de novas eleições.
Foi assim que em 25 de Abril (esta data tem mística) de 2009, a Islândia foi a eleições e recusou votar em partidos que albergassem a velha, caduca e corrupta classe política que os tinha levado àquele estado de penúria. Um partido renovado (Aliança Social Democrata) ganhou as eleições, e conjuntamente com o Movimento Verde de Esquerda, formaram uma coligação que lhes garantiu 34 dos 63 deputados da Assembleia). O partido do poder (PP) perdeu em toda a linha.
Daqui saiu um Governo totalmente renovado, com um programa muito objectivo: aprovar uma nova Constituição, acabar com a economia especulativa em favor de outra produtiva e exportadora, e tratar de ingressar na UE e no Euro logo que o país estivesse em condições de o fazer, pois numa fase daquelas, ter moeda própria (coroa finlandesa) e ter o poder de a desvalorizar para implementar as exportações, era fundamental.
Foi assim que se iniciaram as reformas de fundo no país, com o inevitável aumento de impostos, amparado por uma reforma fiscal severa. Os cortes na despesa foram inevitáveis, mas houve o cuidado de não "estragar" os serviços públicos tendo-se o cuidado de separar o que o era de facto, de outro tipo de serviços que haviam sido criados ao longo dos anos apenas para serem amamentados pelo Estado.
As negociações com o FMI foram duras, mas os islandeses não cederam, e conseguiram os tais empréstimos que necessitavam a um juro máximo de 3,3% a pagar nos tais 30 anos. O FMI não tugiu nem mugiu. Sabia que teria de ser assim, ou então a Islândia seguiria sozinha e, atendendo às suas características, poderia transformar-se num exemplo mundial de como sair da crise sem estender a mão à Banca internacional. Um exemplo perigoso demais.
Graças a esta política de não pactuar com os interesses descabidos do neo-liberalismo instalado na Banca, e de não pactuar com o formato do actual capitalismo (estado de selvajaria pura) a Islândia conseguiu, aliada a uma política interna onde os islandeses faziam sacrifícios, mas sabiam porque os faziam e onde ia parar o dinheiro dos seus sacrifícios, sair da recessão já no 3º Trimestre de 2010.
O Governo islandês (comandado por uma senhora de 66 anos) prossegue a sua caminhada, tendo conseguido sair da bancarrota e preparando-se para dias melhores. Os cidadãos estão com o Governo porque este não lhes mentiu, cumpriu com o que o referendo dos 93% lhe tinha ordenado, e os islandeses hoje sabem que não estão a sustentar os corruptos banqueiros do seu país nem a cobrir as fraudes com que durante anos acumularam fortunas monstruosas. Sabem também que deram uma lição à máfia bancária europeia e mundial, pagando-lhes o juro justo pelo que pediram, e não alinhando em especulações. Sabem ainda que o Governo está a trabalhar para eles, cidadãos, e aquilo que é sector público necessário à manutenção de uma assistência e segurança social básica, não foi tocado.
Os islandeses sabem para onde vai cada cêntimo dos seus impostos.
Não tardarão meia dúzia de anos, que a Islândia retome o seu lugar nos países mais desenvolvidos do mundo.
O actual Governo Islandês, não faz jogadas nas costas dos seus cidadãos. Está a cumprir, de A a Z, com as promessas que fez.
Se isto servir para esclarecer uma única pessoa que seja deste pobre país aqui plantado no fundo da Europa, que por cá anda sem eira nem beira ao sabor dos acordos milionários que os seus governantes acertam com o capital internacional, e onde os seus cidadãos passam fome para que as contas dos corruptos se encham até abarrotar, já posso dar por bem empregue o tempo que levei a escrever este artigo.


Por Francisco Gouveia, Eng.º 

segunda-feira, março 14

FORTE DE SÃO JOÃO BAPTISTA DAS BERLENGAS



O Forte de São João Baptista das Berlengas, ou simplesmente Fortaleza das Berlengas, localiza-se na ilha da Berlenga Grande, no arquipélago das Berlengas ( Estelas e Farilhões ) integrando o conjunto defensivo marítimo com o forte de Peniche, no Distrito de Leiria desde século XVII ao século XIX.
A ocupação humana da Berlenga Grande, a única habitável, remonta à Antiguidade, sendo assinalada como ilha de Saturno pelos geógrafos Romanos. Posteriormente foi visitada por navegadores Muçulmanos, Vikings, corsários Franceses e Ingleses.
Em 1513, com o apoio da rainha D. Leonor, monges da Ordem de São Jerónimo aí se estabeleceram com o propósito de oferecer auxílio à navegação e às vítimas dos frequentes naufrágios naquela costa atlântica, assolada por corsários, fundando o Mosteiro da Misericórdia da Berlenga, no local onde, desde 1953, se ergue um restaurante. Entretanto, a escassez de alimentos, as doenças e os constantes assaltos de piratas e corsários marroquinos, argelinos, ingleses e franceses, tornaram impossível a vida de retiro dos frades, muitas vezes incomunicáveis devido à inclemência do mar.
Em 31 de Janeiro de 1580, faleceu em Almeirim, sem deixar descendência, depois da morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir, o 17º rei de Portugal, o Cardeal D. Henrique.
Na crise de sucessão, que se seguiu, apresentavam-se como pretendentes três netos de D. Manuel I: Filipe II, rei de Espanha, D. Catarina de Bragança e D. António, Prior do Crato.
Filipe tinha a força das armas a seu favor e alguns fidalgos de Portugal e por isso um exército espanhol, comandado pelo Duque de Alba, invadiu o Alentejo, e Filipe foi proclamado rei de Portugal, com o título de Filipe I.
D. António, porém, não o reconheceu, e pediu o auxílio de Isabel Tudor, rainha de Inglaterra, filhe de Henrique XVIII e de Ana Bolena.  Em 16 de Maio de 1589, uma armada inglesa, constituída por 170 navios, fez desembarcar em Peniche cerca de 20 mil homens, comandados pelo general John Norris.
Os ingleses tomaram a praça de Peniche, enquanto a esquadra que os trouxera rumou a Cascais, sob o comando do almirante Francis Drake.
Os Antonistas, partidários do Prior do Crato, receberam com muitas esperanças a notícia do desembarque dos seus amigos ingleses, em Peniche.
O exército invasor, constituído principalmente por mercenários, a quem havia sido prometido que seriam recebidos de braços abertos, em Lisboa, e não teriam necessidade de lutar, avançaram para a capital, ao mesmo tempo que devastavam e roubavam as povoações por onde passavam: Atouguia, Lourinhã, Torres Vedras, Loures… até que chegaram a Lisboa e acamparam nos altos do Monte Olivete.
Pouco depois, com grande surpresa dos ingleses, os canhões do Castelo de S. Jorge, por ordem do espanhol D. Gabriel Niño, começaram a despejar metralha sobre eles.
O acampamento foi, por isso, mudado várias vezes para outros lugares, até que, depois de um breve recontro com os castelhanos, as tropas inglesas acabaram por se abrigar em Cascais, na mesma esquadra que os tinha trazido para Peniche.
Os partidários de D. António, Prior do Crato, viram assim esvair-se todas as esperanças que tinham depositado nos seus AMIGOS DE PENICHE.

No contexto da Guerra da Restauração, sob o governo de D. João IV (1640-1656), o Conselho de Guerra determinou a demolição das ruínas do mosteiro abandonado e a utilização de suas pedras na construção de uma fortificação para a defesa daquele ponto estratégico do litoral. Embora se ignore a data em que as obras foram iniciadas, já em 1655, quando ainda em construção, resistiu com sucesso ao seu primeiro assalto, ao ser bombardeada por três embarcações de bandeira turca.
Em 1666, no contexto da tentativa de rapto da princesa francesa Maria Francisca Isabel de Sabóia, noiva de Afonso VI  (1656-67), uma esquadra espanhola integrada por 15 embarcações intentou a conquista do forte, defendido por um efectivo de pouco mais de duas dezenas de soldados sob o comando do Cabo António Avelar Pessoa. Numa operação combinada de bombardeio naval e desembarque terrestre os atacantes perderam, em apenas dois dias, 400 soldados em terra e 100 nos navios (contra um morto e quatro feridos pelos defensores), sendo afundada a nau espanhola Covadonga e seriamente avariadas outras duas, afundadas no regresso a Cádis. Traída por um desertor, sem mais munições e mantimentos, a praça finalmente rendeu-se perdendo nove das peças de artilharia capturadas pelos invasores.
Ao tempo da Guerra Peninsular foi utilizada, como base de apoio pelas forças inglesas, numa campanha de guerrilha na qual colaborou activamente a população de Peniche.
Posteriormente sofreu obras de restauração, com a reedificação da Capela em seu interior.
Durante a Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), a fortaleza encontrava-se em mãos dos partidários de Miguel I de Portugal  (1828-1834). Com deficiência de artilharia, entretanto, não resistiram diante do assalto dos liberais que a utilizaram como base para o assalto à cidadela de Peniche, reduto dos miguelistas.
Sem maior valor militar, diante da evolução dos meios bélicos no século XIX, foi desarmada (1847) e abandonada passando a ser utilizada como base de apoio para a pesca comercial.
Em meados do século XX foi parcialmente restaurada e aberta ao turismo e adaptada como pousada. Actualmente funciona apenas como casa de abrigo, sob a gestão da Associação dos Amigos das Berlengas.
O forte é de planta,  no formato de um polígono heptagonal irregular. No terrapleno, pelo lado voltado para a ilha, apresenta a edificação principal com dois pavimentos, com doze compartimentos onde funcionavam as dependências de serviço (Casa do Comando, Quartéis de Tropas, Armazéns, Cozinha e outros) e mais oito compartimentos inscritos no interior das muralhas. Um corredor sem iluminação dá acesso internamente aos vários pontos da estrutura. Voltadas para o mar rasgam-se onze canhoneiras.