domingo, dezembro 19

Entrevista de D. Duarte Pio, Duque de Bragança (Video)


Discordar de opiniões significa liberdade de pensamento e expressão que, esclareça-se, nem sempre houve, tanto na vigência da monarquia como da república.
Permito-me discordar de uma opinião emitida por Sua Alteza Real D. Duarte Pio, Duque de Bragança, na entrevista de Manuel Luís Goucha.
Antecipadamente esclareço que, pessoalmente, preferiria que em Portugal, em vez de um Presidente da República, amorfo, partidário, houvesse uma monarquia constitucional, interveniente, representativa, ou seja, com um representante directo da nossa origem quase milenar como nação, reconhecidamente apartidário. Neste nosso caso um Rei, D. Duarte, vindo da casa Real de Bragança.
Não foi pacífica nem digna a passagem da Monarquia, já parlamentar, para a República que não nos trouxe nada de novo, nem melhoria social que antes não tivéssemos tido. Para não falar do caos que foi a 1ª República. 
Para quem não sabe história é bom esclarecer que o ultimato Inglês (Mapa Cor-de-Rosa) foi a derradeira consequência do nefasto acontecimento do Terreiro do Paço (o regicídio) e que D. Sebastião carrega no seu halo a culpa indelével do seu desatino.
Quanto muito devemos aos ingleses?!... O tratado de Methuen ou Tratado dos Panos e Vinhos, de  27 de Dezembro de 1703, que Pombal soube ardilosamente contrariar mas, cujo preço pagou bem alto e, com ele, terminou o absolutismo em Portugal. Ah! talvez o orgulho de termos sido os primeiros com o mais antigo tratado, o de Windsor assinado em Maio de 1386 após os ingleses lutarem ao lado da Casa de Avis na batalha de Aljubarrota,  mas, depois, para sempre ficámos subjugados ao império inglês e ao esbulho, após as invasões napoleónicas. 
Voltando à entrevista, não concordo que a educação sexual seja um conceito familiar e não uma matéria curricular; da mesma forma que não se pode exigir a um progenitor que tenha que dominar a matemática para ensinar os seus filhos e, quando nos referimos à matemática podemo-nos referir a qualquer outra disciplina. Excluo da escola as escolhas religiosas. Essas sim, são opções exclusivamente do circulo familiar e de origem cultural.  
Os pais só podem transmitir aos filhos aquilo que lhes foi ensinado e que aprenderam...!
Outro pormenor: seria óptimo que um país, Portugal, pudesse permitir que todos os seus cidadãos exercessem uma profissão compatível com as suas verdadeiras e pessoais aptidões e que cada um fosse o melhor artífice a exercer a sua obrigação profissional e de cidadania. Seriamos sem dúvida um País não tão referido como periférico e tardio, esquecidamente afastado do Atlântico. Permito-me também opinar que erotismo e pornografia são conceitos actuais, em discussão, (Sigmund Freud) embora concorde plenamente que a educação sexual devesse ser ministrada apenas por professores experientes, exímios na matéria. A escola, digo, o ensino, de discurso político dito "minha paixão" passaria à realidade, à construção de uma sociedade de futuro, já tardia, enredada em consecutivas purgas, conflitos partidários e ministeriais, enfáticos. 
Quanto à monarquia representativa, se existisse, talvez não ouvíssemos agora dos iluminados republicanos socialistas que o país tem que se virar para o Atlântico, para a exportação. Ironicamente, só agora? por que não antes?! nos conceitos - pós ou pró - abrilistas nunca foi necessário a não ser, noutro tempo, o do Estado Novo, nas décadas dos anos cinquenta e sessenta quando o atlantismo foi uma realidade. Não ouviríamos, agora, da mesma forma as denúncias escandalosas de corrupção, nem tampouco que o povo, actualmente, considera os políticos, os “profissionais” mais corruptos neste "País à Beira-Mar Plantado"; nem que… por causa de dois submarinos novos, obviamente necessários à realidade atlântica, protesto emergente dos iluminados de agora, se invoque o descalabro económico em que o país submergiu, culpando-se em tudo e do nada o colapso económico. E os escândalos BPN, BCP, etc...etc...etc...? Esqueçamos... são todos inocentes!
E... por que será, que, como sempre, em vésperas de eleições se lembram do assassinato de Sá Carneiro e Amaro da Costa? Porque tudo aqui é tardio, a história um dia, se encarregará de fazer justiça aos traidores "vivos" que venderam Portugal.      
Quanto ao demais, da entrevista, considero que a arte cénica jamais pode ser catalogada por exibir “cenas eventualmente escabrosas” ou então, simplesmente, não existiria desde a antiguidade grega, passando por Shakespeare até à actualidade da sétima arte.

quinta-feira, dezembro 16

HEDONÉ

O HEDONISMO EPICURISTA   
              Epicuro, fundador da escola que tomou o seu nome, nasceu em Atenas, provavelmente, em 341 a.C., do ateniense Néocles, e foi criado em Samos. A mãe praticava a magia. Cedo dedicou-se à filosofia, sendo iniciado por Nausífanes de Teo no sistema de Demócrito. Em 306 abriu a sua famosa escola em Atenas, nos jardins da sua vila, que se tornaram centro das reuniões aristocráticas dos seus admiradores, discípulos e amigos. Epicuro expôs a sua doutrina num grande número de escritos, pela maior parte perdidos. Faleceu em 270 a.C. com setenta anos de idade. O epicurismo teve, desde logo, rápida e vasta difusão no mundo romano, onde encontramos, sobretudo, Tito Lucrécio Caro - I século a.C. - o poeta entusiasta, autor de De rerum natura, que venerava Epicuro como uma divindade. A ele devemos as melhores notícias sobre o sistema epicurista. A escola epicurista durou até o IV século d.C., mas teve escasso desenvolvimento, conforme o desejo do mestre, que queria os discípulos fiéis até à letra do sistema. A originalidade deveria manifestar-se na vida.
Epicuro foi pessoa fidalga e refinada, o ideal da fidalguia antiga: fazer da formosura o princípio inspirador da vida e fruir dessa formosura na própria existência pessoal. Foi um mestre eficaz de sabedoria aristocrática, feita de nobreza de sentimentos, senso refinado, gosto para a formosura, para a cultura superior. Nos seus jardins, num sereno lazer, semelhante ao dos deuses, deu vida a uma sociedade genial, em que dominava o vínculo da amizade. As amizades dos epicuristas ficaram famosas como as dos pitagóricos. A associação espalhou-se depois, mas conservou-se fortemente organizada, mediante uma estável constituição, ajudas materiais, cartas, missões. O mestre pareceu aos discípulos como que um redentor; a sua filosofia foi considerada como uma religião, a sua doutrina, resumida em catecismos, a sua imagem, gravada nas jóias, em sua honra celebravam-se festas comemorativas, mensais e anuais. Se não houve pensadores epicuristas notáveis depois de Epicuro no mundo clássico nem depois, houve todavia, em todos os tempos e lugares, homens famosos, pertencentes às classes sociais elevadas, que aplicassem a sua doutrina à vida e dela fizessem a substância da sua arte.
O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica
Também o epicurismo, como o estoicismo, divide a filosofia em lógica, física e ética; também subordina a teoria à prática, a ciência à moral, para garantir ao homem o bem supremo, a serenidade, a paz, a apatia. A filosofia é a arte da vida. Precisamente, é tarefa do conhecimento do mundo, da física - diz Epicuro - libertar o homem dos grandes temores que ele tem a respeito da sua vida, da morte, do além-túmulo, de Deus e fazer com que ele actue de conformidade. Portanto, recorre Epicuro à física atomista, mecanicista, democritiana, pela qual também os Deuses vêm a ser compostos de átomos, e - habitadores felizes de intermundos - desinteressam-se por completo dos homens. Aliás, não é excluído o facto de que a necessidade universal oprimiria o homem ainda mais do que o arbítrio divino. Igualmente, a alma - formada de átomos subtis, mas sempre materiais - perece com o corpo; daí, nenhuma preocupação com a morte, nem com o além-túmulo: seria igualmente absurdo preocupar-se com aquilo que se segue à morte, como com aquilo que precede o nascimento.
A gnosiologia (lógica, canónica) epicurista é rigorosamente sensista. Todo o nosso conhecimento deriva da sensação que é uma complicação de sensações. Estas nos dão o ser, indivíduo material, que constitui a realidade originária. O processo cognoscitivo da sensação é explicado mediante os assim chamados fantasmas, que seriam imagens em miniatura das coisas, arrancar-se-iam destas e chegariam até à alma imediatamente, ou mediatamente através dos sentidos. Dada tal gnosiologia coerentemente sensista, é natural que o critério fundamental e único da verdade seja a sensação, a percepção sensível, que é imediata, intuitiva, evidente. Como a sensação, a evidência sensível é o único critério de verdade no campo teorético, da mesma forma o sentimento (prazer e dor) será o critério supremo de valor no campo prático.
Como a gnosiologia epicurista é rigorosamente sensista, a metafísica epicurista é rigorosamente materialista: quer dizer, resolve-se numa física. Epicuro, seguindo as pegadas de Demócrito, concebe os elementos últimos constitutivos da realidade como corpúsculos inúmeros, eternos, imutáveis, invisíveis, homogêneos, indivisíveis (átomos), iguais qualitativamente e diversos quantitativamente - no tamanho, na figura, no peso. Também segundo Epicuro, os átomos estão no espaço vazio, infinito, indispensável para que seja possível o movimento e, consequentemente, a origem e a variedade das coisas. Os átomos são animados de movimento necessário para baixo. Entretanto, no movimento uniforme rectilíneo para baixo introduz Epicuro desvios múltiplos, sem causa, espontâneos (clinamen); daí derivam encontros e choques de átomos e, por conseqüência, os vórtices e os mundos. Estes, de fato, não teriam explicações se os átomos caíssem todos com movimentos uniforme e rectilíneos para baixo - como pensava Demócrito. Mediante o clinamen Epicuro justifica ainda o livre arbítrio, que é uma simples combinação da contingência, do indeterminismo universal. O universo não é concebido como finito e uno, mas infinito e resultante de mundos inúmeros divididos por intermundos, espalhado pelo espaço infindo, sujeitos ao nascimento e à morte. Nesse mundo o homem, sem providência divina, sem alma imortal, deve adaptar-se para viver como melhor puder. Nisto estão toda a sabedoria, a virtude, a moral epicuristas.
A Moral e a Religião
A moral epicurista é uma moral hedonista. O fim supremo da vida é o prazer sensível; critério único de moralidade é o sentimento. O único bem é o prazer, como o único mal é a dor; nenhum prazer deve ser recusado, a não ser por causa de consequências dolorosas, e nenhum sofrimento deve ser aceite, a não ser em vista de um prazer, ou de nenhum sofrimento menor. No epicurismo não se trata, portanto, do prazer imediato, como é desejado pelo homem vulgar; trata-se do prazer imediato, reflectido, avaliado pela razão, escolhido prudentemente, sabiamente, filosoficamente. É mister dominar os prazeres, e não se deixar por eles dominar; ter a faculdade de gozar e não a necessidade de gozar. A filosofia toda está nesta função prática. Este prazer imediato deveria ficar sempre essencialmente sensível, mesmo quando Epicuro fala de prazeres espirituais, para os quais não há lugar no seu sistema, e nada mais seriam que complicações de prazeres sensíveis. O prazer espiritual diferenciar-se-ia do prazer sensível, porquanto o primeiro se estenderia também ao passado e ao futuro e transcende o segundo, que é unicamente presente. Verdade é que Epicuro mira os prazeres estéticos e intelectuais, como os mais altos prazeres. Aqui, porém, se ele faz uma afirmação profunda, está certamente em contradição com a sua metafísica materialista.
Em que consiste, afinal, esse prazer imediato, reflectido, racionado? Na satisfação de uma necessidade, na remoção do sofrimento, que nasce de exigências não satisfeitas. O verdadeiro prazer não é positivo, mas negativo, consistindo na ausência do sofrimento, na quietude, na apatia, na insensibilidade, no sono, e na morte. Mas precisamente ainda, Epicuro divide os desejos em naturais e necessários - por exemplo, o instinto da reprodução; não naturais e não necessários - por exemplo, a ambição. O sábio satisfaz os primeiros, quando for preciso, os quais exigem muito pouco e cessam apenas satisfeito; renuncia os segundos, porquanto acarretam fatalmente inquietação e agitação, perturbam a serenidade e a paz; mas ainda renuncia os terceiros, pelos mesmos motivos. Assim, a vida ideal do sábio, do filósofo, que aspira a liberdade e à paz como bens supremos, consistiria na renúncia a todos os desejos possíveis, aos prazeres positivos, físicos e espirituais; e, por conseguinte, em vigiar-se, no precaver-se contra as surpresas irracionais do sentimento, da emoção, da paixão. Não sofrer no corpo, satisfazendo suas necessidades essenciais, para estar tranquilo; não ser perturbado no espírito, renunciando a todos os desejos possíveis, visto ser o desejo inimigo do sossego: eis as condições fundamentais da felicidade, que é precisamente liberdade e paz.
Na realidade, Epicuro, se ensina a renúncia, não tem a coragem de ensinar a renúncia aos prazeres positivos espirituais, estéticos e intelectuais, a amizade genial, que representa o ideal supremo na concepção grega da vida. E sustenta isto em contradição com a sua ascética radical, bem como contradiz a sua metafísica materialista com a sua moral, que encontra precisamente a mais perfeita realização nestes bens espirituais. O mundo e a vida são um espectáculo: melhor é ser espectadores e actores, melhor é conhecer do que agir. No entanto, o bem espiritual não consiste unicamente na contemplação (cfr. a virtude dianoética de Aristóteles), mas também na acção (cfr. a virtude ética de Aristóteles), e precisamente em uma vida curta e refinada, esteticamente, a maneira grega, no isolamento do mundo, do vulgo, na unidade da amizade, na conversa arguta e delicada: numa palavra, vivendo ocultamente. É de facto, nos jardins de Epicuro, a vida se inspirava nos mais requintados costumes, preenchida com as mais nobres ocupações - como na Academia e no Liceu. Almejava, no entanto, dar uma unidade estética e racional à vida, mais do que ao mundo. O epicurismo, portanto, considerado vulgarmente como propulsor de devassidão e sensualidade, representa, inversamente, uma norma de vida ordinária e espiritual, até um verdadeiro pessimismo e ascetismo, praticamente ateu.
A serenidade do sábio não é perturbada pelo medo da morte, pois todo mal e todo bem se acham na sensação, e a morte é a ausência de sensibilidade, portanto, de sofrimento. Nunca nos encontraremos com a morte, porque quando nós somos, ela não é, quando ela é nós não somos mais, Epicuro, porém, não defende o suicídio que poderia justificar com maior razão do que os estóicos.
Dado este conceito da vida concebida como liberdade, paz e contemplação, é natural que Epicuro seja hostil ao matrimónio e à família, aliás geralmente desvalorizado no mundo grego. Epicuro é também hostil à actividade pública, à política considerando a família e a pátria como causas de agitações e inimigos da autarquia.
Não obstante o seu materialismo teórico e o seu ateísmo prático, Epicuro admite a divindade transcendente, diversamente do imanentismo estóico. A prova da existência da divindade estaria no facto de que temos na mente humana a sua ideia, que não pode ser senão cópia da realidade. Os fantasmas dos deuses proviriam dos próprios deuses - como os fantasmas de todas as outras coisas - desceriam até nós dos intermundos, especialmente durante o sono. Os deuses de Epicuro são muitos, constituídos de átomos etéreos, subis e luzentes, dotados de corpos luminosos, tendo forma humana belíssima, imortais - diversamente dos deuses estóicos - beatos, contemplados - segundo ideal grego da vida - sempre acordados e sentados em jovial convívio, sorvendo ambrósia, conversando em grego! Mas - como as ideias transcendentes de Platão e acto puro de Aristóteles - não actuam sobre o mundo e a humanidade, para não serem contaminados, perturbados. Vivem, portanto, fora do mundo e dos mundos, nos espaços entre mundo e mundo, na beata solidão dos intermundos, escapando destarte à fatal destruição dos mundos. É uma teologia refinada de ateniense e de artista, que vive no mundo de estátuas divinas, encarnando na serenidade do mármore o ideal grego contemplativo e estético da vida.
Epicuro venera os deuses, não para receber auxílio, mas porque eles encarnam o ideal estético grego da vida, ideal que tem uma expressão concreta precisamente nas belas divindades do panteão helénico. Então, se os deuses não proporcionam ao homem nenhuma vantagem prática, proporcionam-lhe contudo o bem da elevação, que importa na contemplação do ideal. É preciso venerá-los para imitá-los. Deste modo, Epicuro, proclamado ateu, teria praticado - entre os limites impostos pelo pensamento grego e pelo seu pensamento - o mal da religião, uma religião desinteressada, uma espécie de puro amor de Deus dos ascetas e dos místicos.
Cepticismo e Ecletismo
O cepticismo apresenta-se mais coerente do que as escolas precedentes, especialmente do que o estoicismo, com os fins práticos de uma filosofia da renúncia, da indiferença, do sossego. É o cepticismo a última palavra da sabedoria antiga, desesperada por não ter podido resolver o problema da vida mediante a razão. O estoicismo procura realizar a apatia ainda mediante uma metafísica positiva, embora imperfeita, incoerente. O epicurismo tende a realizar o mesmo fim com uma metafísica negativa, negando todo absoluto e transcendente. O cepticismo visa sempre um fim último ético ascético, sem qualquer metafísica, mesmo negativa.
Através da mais absoluta indiferença, prática e teorética, procura-se realizar finalmente tão almejada paz. A felicidade não é mais uma coisa positiva, nem está no saber e não se pode alcançar mediante o saber, mas pode ser alcançada unicamente negando o saber. Chega-se, destarte, à destruição de todos os valores. Substancialmente, a grande metafísica platônico-aristotélica é posta de lado, mas não é atacada pelo cepticismo. Persiste nos cépticos uma fé nostálgica e realista e o conceito da objectividade da ciência: o ser, o objecto, existem, mas não se podem conhecer por falta de meios. Diz Argesilau: "Deus unicamente conhece a verdade, que é inacessível ao homem".
O cepticismo clássico começa com Pirro de Elis (365-275 a.C., mais ou menos), cuja escola terminou pouco depois do seu discípulo Timon. Encarna-se na média academia com Argesilau e Carnéades. E, enfim, surge de novo na forma pirroniana com Enesidemo e Sexto Empírico, em princípios da era vulgar. O cepticismo critica o conhecimento sensível, bem como o intelectual, e também a opinião. A primeira escola céptica serve-se, geralmente, do relativismo sofista; a segunda afirma-se de modo original graças a Carnéades; a terceira, de tendência pirroniana, faz uso da dialéctica eleática, da tese e da antítese.
O ecletismo apresenta-se como um sistema afim, embora imensamente inferior ao cepticismo. Também o ecletismo, como o cepticismo, substitui ao critério da verdade o da verosimilhança, embora acriticamente. O nem dos cépticos é mudado em e pelos ecléticos; se nada é verdadeiro, tudo vale igualmente. E isto basta aos fins ético empíricos dos ecléticos, semelhantes e diversos ao mesmo tempo dos fins éticos ascéticos dos cépticos. É o ecletismo filosofia de espíritos pragmáticos ou decadentes, não filosóficos, que concebem a filosofia popularmente moral ou não têm a força da crítica, nem a da afirmação, que implica sempre numa crítica, pois a filosofia é escolha, construção, sistema, organismo especulativo, e não justaposição mecânica de peças sem vida.
O advento de uma semelhante filosofia foi favorecido pela permanência e pela coexistência, no período helenista e depois ainda, de várias escolas filosóficas, que surgiram em tempos diferentes, e por demais despersonalizadas, esvaziadas do seu conteúdo original, característico - como acontece nos períodos de decadência especulativa - de sorte que se torna fácil a síntese eclética, feita de abstractas generalidades ou de particularidades secundárias. O pragmatismo eclético foi, enfim, favorecido pelo contacto do pensamento grego com a romanidade dominante, inteiramente voltada para a prática e para a acção, cuja grande obra, portanto será não a filosofia, e sim o justo (o direito).
O ecletismo apresenta-se como uma síntese prática ou, melhor ainda, como uma suma de elementos estóicos, académicos e também peripatéticos. Contém muito menos elementos cépticos e epicuristas, dada a natureza crítica do cepticismo, e a coerência materialista do epicurismo. Temos precisamente, em ordem cronológica, um ecletismo estóico, depois académico e, enfim, peripatético, segundo os elementos de uma ou de outra escola na síntese prática do próprio ecletismo.
DEDICATÓRIA: Este texto é oferecido à minha ex-professora de filosofia, Drª Fernanda Fernandes a quem atribuo a responsabilidade do conhecimento.
 

terça-feira, novembro 30

MACHISMO / FEMINISMO / IGUALDADE DE DIREITOS


Machismo ou chauvinismo masculino é a crença androgénica de que os homens são superiores às mulheres.
A palavra "chauvinista" foi originalmente usada para descrever alguém fanaticamente leal ao seu país, mas a partir do movimento de libertação da mulher, nos anos 60, passou a ser usada para descrever os homens que mantêm a crença na inferioridade da mulher. No espaço lusófono, a expressão "chauvinista masculino" ou, simplesmente, "chauvinista" também é utilizada, mas "machista" é a expressão mais usual.
É bastante comum a ideia de que o feminismo é um equivalente directo ao machismo, o que é um equivoco, já que a filosofia que apregoa a "superioridade feminina" é chamada de “femismo”, palavra pouco conhecida, o que frequentemente gera confusões, já que muitos ainda preferem referir, erroneamente, esta filosofia como o próprio feminismo, porém, numa vertente radicalizada de androfobia.
A teoria feminista é uma extensão do feminismo para os campos teóricos ou filosóficos, e abrange obras numa série de disciplinas, que incluem a antropologia, a sociologia, economia, estudos femininos, crítica literária, história da arte, psicanálise e filosofia. A teoria feminista tem como meta compreender a desigualdade entre os sexos e mantém o seu foco nas políticas relacionadas aos mesmos, às relações de poder e à sexualidade, ao mesmo tempo que fornece uma crítica destas relações sociais e políticas. A maior parte da teoria feminista visa a promoção dos interesses e direitos das mulheres. Entre os temas explorados pela teoria feminista estão a discriminação estereotipada, objectualização, especialmente a sexual, a opressão e o patriarcado.
A feminista e crítica literária americana Elaine Showalter descreve o desenvolvimento em fases da teoria feminista; ela chama a primeira fase de "crítica feminista", na qual a leitora feminista examina as ideologias por trás dos fenómenos literários; a segunda ela chama de "ginocrítica", na qual a "mulher é a produtora de significado textual", incluindo "a psicodinâmica da criatividade feminina, a linguística e o problema de uma língua feminina, a trajectória da história e da carreira literária feminina, individual ou colectiva." A última fase é chamada por ela de "teoria do género", na qual a "inscrição ideológica e os efeitos literários do sistema de sexo/géneros" são explorados.  
A académica Toril Moi criticou este modelo, que viu como um modelo essencial e determinista para a subjectividade feminina, que não consegue levar em conta a situação das mulheres fora do Ocidente, mais precisamente nos países islâmicos.
Vai demorar alguns anos até que a mulher possa assumir globalmente o seu direito à igualdade que é ainda uma questão arraigada, pontualmente, à religiosidade e à cultura. Nas suas diferenças fisiológicas o homem e a mulher completam-se, na sua vertente individual (hetero/homo) interagem colectivamente na formação de uma sociedade activa, justa, sem dissemelhanças nos seus inquestionáveis direitos, nas suas capacidades intelectuais e de género. Virá o dia em que os conceitos "machista" e "feminista" deixarão de ter significado por se tornarem obsoletos.
   

sábado, novembro 20

NATO-OTAN E A ACTUAL DIVISÃO DO MUNDO DO SEC. XXI


Acabou a cimeira de Lisboa e já todos os governantes presentes regressaram aos seus respectivos países em boa segurança.
Depois de todos os receios fundados de ataques terroristas e distúrbios violentos, comparativamente às manifestações habituais contestatárias a que o mundo já se habituou a ver, em directo, noutros países em idênticas ocasiões, agora tudo correu sem atropelos e dentro da relativa normalidade.

Todo o sistema de alta segurança foi activado e, sem dúvida, as forças de segurança portuguesas estão no topo da evidência; os serviços secretos, fronteiras, polícias, marinha e força aérea, devem ser homenageados. Não é a primeira vez que o demonstram e por isso aqui vai: parabéns…! Parece que somos eficientes na segurança interna e na diplomacia externa com o tal chamado jogo de cintura. 

Quanto às perspectivas de futuro, ainda subsistem muitas e grandes dúvidas:

A NATO foi uma criação do após segunda guerra mundial que ficou a cargo dos Estados Unidos, durante a guerra fria e até para além da queda do muro de Berlim, mas agora era, sem dúvida, necessário reformular a sua estratégia e actividade militar conjunta de intervenção rápida antiterrorista, controlo do ciberespaço, bem como o seu posicionamento político - países da União Europeia - face à actual situação económica e geopolítica, nomeadamente no Iraque e Afeganistão; foi estabelecida uma meta de ocupação militar "Nato" até 2014, mas o treino policial e militar dos afegãos é muito problemático devido ao seu estado generalizado de analfabetismo. Suspeita-se que em quatro ou cinco anos não se consiga estabelecer uma força afegã capaz de combater as forças bem armadas dos extremistas talibans e al-qaeda que continuam a ter apoios estranhos.      
Os estados Unidos e a Rússia ainda não ratificaram o último acordo START do passado 8 de Abril em Praga, mas Obama perdeu pontos na Câmara dos Representantes e agora vai ter que renegociar com os democratas republicanos do círculo Bush e alguns senadores do "contra" do seu próprio partido;

Dmitri Medvedev deixou bem claro que é situação incondicional para a pretendida "colaboração russa", discutida na cimeira, quanto à colocação da linha defensiva antimíssil. Para além disso, a Europa vai ter que encontrar uma plataforma interna de percepção, nomeadamente aos desentendimentos e controlo mediterrânico: Espanha (Gibraltar) / Eta ; Turquia / Chipre, sem falar no Mar do Norte, Irlanda (IRA) e Inglaterra.
É bem melhor a gente ver tentativas preventivas de entendimento do que procurar solucionar conflitos bélicos como foram os do Kosovo e da Bósnia.
A ausência da América Latina foi evidente e todos esses acordos têm que se estender inevitavelmente ao Atlântico Sul e Pacífico, mas colocar ingleses e argentinos, brasileiros, colombianos, bolivianos e venezuelanos na mesma mesa tem, de certo modo, alguma dificuldade, bem como a Alemanha com a aceitação da Turquia na União Europeia. A Austrália apesar de não pertencer à NATO esteve presente e, como sempre colaborante.
Quais são actualmente as outras partes beligerantes no cenário deste globo único chamado Terra: (China ou Índia?). Quanto ao Médio Oriente, entre israelitas, Irão e palestinianos é para esquecer, é um conflito que parece não ter acordo nem fim. Se Bush tivesse continuado no poder, o receio do mundo quanto ao Irão era premente. O Irão e a Coreia do Norte são, de momento, as maiores preocupações dos Estados Unidos e dos países aliados da OTAN.
Porta aviões USA na Coreia do Sul
Na África Subsariana, Angola e Moçambique são referidos como focos de plataforma e distribuição de tráfego de estupefacientes, devido à sua incapacidade de controlo policial terrestre e marítimo. 
Quanto à administração Americana, Obama trouxe alguma tranquilidade à gente. Veremos o que é que o mundo nos reserva na saída desta primeira década do Século XXI e a entrada na segunda década que vem já de seguida.
O QUE FICA DE TUDO ISTO É A ESPERANÇA!
  E foi assim desde o princípio
Parece que esta década do século XXI vai acabar mal. Depois da Cimeira da Nato e dos acordos estabelecidos de parceria com os Estados Unidos as Coreias estão em conflito armado e já houve troca mútua de agressões bélicas. Os Estados Unidos estão e reforçar o seu contingente militar na Coreia do Sul. A China permanece silenciosa e esperemos que assim continue.

sexta-feira, novembro 19

OS HOMENS NÃO SE MEDEM AOS PALMOS


Estas “coisas” às vezes surgem na memória das recordações.
Vou contar uma história verdadeira e surpreendente porque a mim também me surpreendeu.
No tempo em que os Tribunais funcionavam e eram respeitados: 
Há uns anos quando eu trabalhava na Delegação da Procuradoria, hoje só Procuradoria, tinha dois dias da semana, segundas e quintas de manhã para os exames médicos forenses. O médico contratado ia ao Tribunal avaliar a gravidade dos ferimentos apresentados pelos queixosos, ditava o seu parecer e, a partir daí e doutros exames, se necessário, é que o processo de ofensas corporais era posteriormente classificado para julgamento.
Recuando no tempo é preciso rebuscar a história pare melhor explanação.

Havia sempre aqueles clientes habituais das segundas-feiras devido às zaragatas dos Sábados e Domingos e, quase sempre, quando havia futebol, duplicava a clientela.
Um tal de alcunha Zé Grande, que não sei se já morreu, indivíduo com cerca de dois metros e e mais algum, zaragateiro, forte que nem um boi, lá fazia aparecer habitualmente os seus queixosos, examinandos, vítimas das suas agressões. A posteriori lá ia ele prestar declarações e tentar, zombeteiro, esclarecer o motivo da zaragata que nunca resultava nele qualquer tipo de ferimento devido à sua força e altura.
Estes “l'habitude” iam estabelecendo com o Tribunal uma certa interacção de frequência de tal ordem que, se não apareciam já se estranhava.
Até que um dia, obviamente, a uma segunda-feira de manhã, depois de um Domingo de futebol o Zé Grande aparece com a cara e parte da cabeça ligada e engessada. Sem poder falar porque com um murro alguém lhe tinha fracturado o maxilar inferior. Minha Surpresa, o Zé Grande tinha que escrever à mão para eu poder transcrever nos autos as suas declarações. Escreveu ele: “Levei um murro que parecia um coice dum cavalo e só acordei no hospital”. Espera lá, pensei eu, o agressor deve ser um tipo à tua altura, medida e força para de deixar assim nesse estado. Pensei e disse-lhe porque a confiança já era relativa. 
Esperou pelo médico foi sujeito ao exame que requeria a cura e radiografias e foi embora. Eu é que fiquei com curiosidade de conhecer o “Bulldozer” que tinha “atropelado” e quebrado o queixo do Zé Grande, gigante por certo e, por isso, não perdi tempo em chamar o agressor a declarações.
Pensado e feito.
Passada uma semana após a ocorrência, que era o mínimo de tempo que havia para emitir um aviso de chegar a ser efectivo e o processo do Zé Grande ficou na prateleira em evidência, separado dos restantes, com a data marcada para as declarações do arguido, o tal suposto “gigante”.
Até que chegou o dia. Pelas dez horas deixei a porta aberta para ver entrar o tal que derrubou o Zé Grande e o colocou "KO" no hospital.
Aparecer apareceu só que era um indivíduo magro e com cerca de um metro e meio, mas, pelo já visto eficiente nas circunstancias ocorridas.
Comentava eu depois a um colega: “Como é que aquele gajo conseguiu chegar lá acima?” Vai daí, se calhar com um escadote, retorquia.   
Em declarações posteriores testemunhais e do próprio queixoso foi esclarecido que o agressor dava grandes saltos e tinha uma força fora do comum. Pequenino mas com muita força. O certo é que a partir daí o Zé Grande deixou de brigar e de aparecer. Para grandes males, grandes remédios.
Pode-se daqui concluir algo que justifique esta explanação? Pode! As aparências iludem.
Moral da história: nunca avalies o teu adversário pelo aspecto porque pode surgir daí uma grande surpresa.
 VIDEO:  A LIÇÃO DOS INGLESES.


quinta-feira, novembro 18

ORIGEM EXTRATERRESTRE


Por momentos convido-vos a esquecer tudo o que aprendemos e nos ensinaram até agora nas escolas, partindo da premissa que podemos estar errados. Analisando a partir da proto-história, continuando pela história, incluindo as religiões, as filosofias, vamos abordar o assunto da nossa origem noutra perspectiva actual mas, porventura, enigmática:
Se começarmos pela pré-história, no paleolítico, quando o homem troglodita de Neardenthal se encontrou com o homem de Cro-Magnon e viveram em comum vários milhares de anos, deparamos com o desaparecimento repentino dos neardenthalensis. Mas donde e como surgiu o homo sapiens, em tão curto espaço-tempo?! Até hoje ainda ninguém encontrou o verdadeiro elo de ligação do homo sapiens-sapiens originário, ou seja, do Cro-Magnon com os seus ditos antepassados hominídeos "macacóides", segundo o princípio da teoria da evolução de Darwin, ao contrário de todos os outros animais, cujos elos de ligação se encontram devidamente catalogados. Origem teórica do humano malograda e posta em dúvida pela actual ciência genética mitocondrial, ao afirmar que, mesmo se ambas as “espécies” (neardenthal e cro-magnon) se tivessem miscigenado nunca os seus descendentes se poderiam reproduzir. O homo sapiens surgiu repentinamente, do nada, triunfou e evoluiu até aos nossos dias sem se conhecer a sua origem em termos de ciências exactas. Esta continua a ser a grande incógnita, como a demanda do Santo Graal, que dá motivo, como esta, a dadas especulações. Seriam os Deuses astronautas, progenitores e criadores do homo sapiens?
Vamos analisar as grandes civilizações da antiguidade: os sumérios, os babilónios, os egípcios, os gregos e os romanos; os maias e os astecas. Começando pelos sumérios tinham conhecimentos astronómicos que ainda hoje nos surpreendem; os babilónios com a sua escrita cuneiforme fonética que herdaram e melhoraram dos sumérios, a escultura, a arte e a arquitectura; os egípcios com tudo isso e com a construção das pirâmides que são ainda diga-se, uma incógnita, um mistério de engenharia; os gregos com a sua organização democrática, filosófica e essencialmente cultural, arquitectural, acrescentando a informação de Platão da existência espacial nunca desacreditada da Atlântida; os romanos que herdaram e absorveram toda a cultura grega mas expandiram o seu poderoso império para além da bacia mediterrânica por quase um milénio, assentes em técnicas militares e administrativas surpreendentes. No outro lado do Atlântico os conhecimentos astronómicos, o calendário dos maias e dos astecas. Depois subitamente o click e tudo pára. Todos estes conhecimentos tecnológicos foram interrompidos, ocultos, furtados à humanidade por mil anos de obscurantismo inquisitorial, na idade média até ainda ao surgimento e para além da idade moderna. Hoje o ser humano está prestes de atingir outra etapa tecnológica, a iniciar-se no espaço cósmico e daqui por meio século ou pouco mais já poderá estar noutros mundos a colonizá-los. Terá sido por acaso que tanto a Rússia como a América, rivais na guerra fria, tenham criado gabinetes ultra secretos para estudarem o problema dos surgimentos dos objectos voadores não identificados? E o mistério de Tanguska ? que no fim de Junho de 1908, uma bola de fogo explodiu por cima das remotas florestas russas de Tunguska, Sibéria, arrasando mais de 2000 quilómetros quadrados de árvores. Para não falar nos fenómenos extra-sensoriais, paranormais, em estudo. A mente humana vai muito além do que se imagina.      
Se pusermos tudo isto e muito mais em questão resta-nos de facto interrogar: O homem é um ser de origem extraterrestre, independentemente de um conceito universal criacionista?
http://www.youtube.com/watch?v=HQdu8VnTXcY&feature=related

NASA ANUNCIA VIDA EXTRATERRESTRE

sexta-feira, novembro 12

ODESSA - Organisation der ehemaligen SS-Angehörigen


Organisation
Der
Ehemaligen
SS
Angehörigen

"Organização de antigos membros da SS"

 ODESSA, em alemão "Organisation der Ehemaligen SS-Angehörigen", que significa "Organização de antigos membros da SS" é o nome dado ao grupo nazi formado em 1946, após a Segunda Guerra Mundial por ex-membros da Schutzstaffel, para prevenir a sua perseguição por crimes de guerra.

A Igreja Católica a Cruz Vermelha Internacional e os militares americanos, em cumplicidade participaram na fuga de oficiais, generais e lideres políticos nazis para países da América Latina: Paraguai, Chile, Brasil, Argentina e outros destinos incluindo os Estados Unidos e talvez o Canadá e o Médio Oriente. Foi identificado um funcionário do Vaticano cúmplice nessa iniciação, o bispo Aloïs Hudal que no seu livro de 1937 “The Foundations of National Socialism” elogiou Adolf Hitler e a sua política, atacando indirectamente as políticas do Vaticano. Após a Segunda Guerra Mundial, tornou-se um infame impenitente para a denominada Ratlines "trilha dos ratos", ajudando a estabelecer e permitindo que proeminentes nazis alemães, entre eles criminosos de guerra, escapassem à captura dos Aliados, mais precisamente da União Soviética que foi a primeira a invadir Berlim e a encontrar os cadáveres de Hitler e Eva Braun, cujo facto foi escondido por Stalin e pela KGB dando, por isso causa a grandes especulações sobre o morte de Hitler, cujo cadáver, veio a saber-se depois da queda do Muro de Berlim, que estava enterrado no chão da sede de Moscovo da polícia secreta russa da KGB "Komitet gosudarstveno bezopasnosti", não menos nefasta que a Gestapo Alemã.

Havia duas rotas principais de fuga "ratlines": a primeira era da Alemanha para a Espanha, seguindo para a Argentina; a segunda da Alemanha a Roma, para Génova, em seguida, América do Sul. Estas duas vias desenvolvidas de forma independente uniram-se depois em constante colaboração também através da Suíça neutral para Roma.
Já em 1942, Monsenhor Luigi Maglione tinha contactado o Embaixador Llobet, indagando sobre a vontade do governo da Argentina em aplicar a sua lei de imigração com a devida generosidade, a fim de incentivar o momento oportuno para “católicos imigrantes europeus procurarem refugio”. Mais tarde, um padre alemão, Anton Weber, chefe da sede em Roma da Sociedade de São Rafael, viajou para Portugal, para lançar as bases para a imigração e fuga de nazis para a Argentina. Segundo o historiador Michael Phayer, essa foi a origem inocente do que viria a ser a trilha dos ratos do Vaticano. De Espanha, para Roma, foi o primeiro centro da actividade da trilha que facilitou a fuga de nazis, embora o próprio êxodo tenha sido planeado dentro do próprio Vaticano.  Charles Lescat, um católico francês membro da “Action Française”, uma organização reprimida pelo Papa Pio XI  mas depois reabilitada pelo Papa Pio XII e Pierre Daye, um belga com contactos no governo espanhol, estavam entre os principais organizadores. Lescat e Daye foram os primeiros a fugir da Europa, com a ajuda do cardeal francês Eugene Tisserant e o cardeal argentino Antonio Caggiano.

Em 1946, havia provavelmente centenas de criminosos de guerra em Espanha e milhares de ex-nazis.

É conhecido no nosso tempo o conflito judaico com os Bancos Suíços que são detentores de contas secretas Nazis e do tesouro do Terceiro Reich nunca encontrado bem como as análises químicas ao ouro para detectar a quantidade de chumbo e mercúrio supostamente proveniente de dentes retirados aos prisioneiros judeus cremados nos campos de extermínio.
Era suposto que toda essa fortuna fosse empregue, na clandestinidade, em prol da fundação do IV Reich a ressurgir nos países de acolhimento, porém, alguns movimentos neonazis foram gorados devido à actividade constante e persistente de pessoas sobreviventes ao holocausto dos campos de extermínio:

Há uma lista infindável de ex-oficiais nazis refugiados na América Latina, maioria supostamente já falecida, porém só se mencionam, a seguir, os que foram mais conhecidos:


Nikolaus' Klaus Barbei, conhecido como o Carniceiro de Lyon, identificado na Bolívia em 1971 pelos Klarsfelds (caçadores de nazis). Barbei vivia sob o pseudónimo de Klaus Altmann. Somente em 19 de Janeiro de 1983 foi extraditado para França pelo governo recém-eleito de Hernán Siles Zuazo.

Otto Adolf Eichmann, referido como "o arquitecto do Holocausto". Após a guerra , fugiu para a Argentina com um passaporte emitido pela Cruz Vermelha Internacional, onde viveu sob falsa identidade de trabalho na Mercedes-Benz até 1960. Foi capturado por agentes da Mossad na Argentina e sequestrado para Israel onde foi julgado por 15 acusações criminais, incluindo crimes contra a humanidade e crimes de guerra . Foi considerado culpado e executado por enforcamento em 1962. Foi o único a ser executado em Israel sob condenação de um tribunal civil.

Erich Priebke, foi responsável por execuções em Itália. Depois da derrota da Alemanha, ele teve ajuda para fugir para a Argentina onde viveu por mais de 50 anos.
Walter Rauff, refugiado no Chile;
Eduard Roschmann, conhecido como o "carniceiro de Riga" refugiado na Argentina,
Paul Schäfer Schneider, refugiado no Chile;
Franz Stangl, refugiado no Brasil, foi julgado pela morte de cerca de 900.000 pessoas; morreu de insuficiência cardíaca em Dusseldorf, na prisão, em 28 de Junho de 1971.
Gustav Franz Wagner, comandante do campo de extermínio de Sobibor, na Polónia, refugiado no Brasil, encontrado morto com uma faca no peito em S. Paulo.

segunda-feira, novembro 1

EDUCAÇÃO NAS ESCOLAS


Assegurar a Educação para a Cidadania Global como uma componente do currículo de natureza transversal, a desenvolver em todas as áreas curriculares disciplinares e não disciplinares, ao longo de todos os ciclos de ensino, é uma das principais recomendações apresentadas no documento “Objectivos estratégicos e recomendações para um plano de acção de Educação para a Cidadania”, elaborado pela comissão de redacção do Fórum Educação para a Cidadania.
No âmbito do núcleo de reflexão Problemática da Cidadania na Escola, integrado no Fórum, as recomendações apontam para a identificação de um núcleo de competências essenciais a desenvolver transversalmente em todo o currículo, tendo em conta três eixos fundamentais: postura cívica individual, relacionamento interpessoal e relacionamento social e intercultural.
A adopção de um referencial pedagógico que inclua conteúdos concretos e constitua orientação geral para a área de Formação Cívica é outra das recomendações inseridas no documento, que salienta a importância da abordagem de temáticas relevantes na sociedade contemporânea, nomeadamente das que incidem sobre o consumo responsável, a segurança humana e os média.
Defende-se, igualmente, a abordagem de questões relacionadas com a Educação para a Cidadania Global na Área de Projecto, na medida em que esta área curricular não disciplinar favorece a articulação dos saberes de diversas áreas curriculares, quer ao nível da reflexão sobre os direitos humanos, quer no que respeita às questões emergentes na sociedade actual.
Para que a escola se assuma enquanto espaço privilegiado de exercício da cidadania, salienta-se a importância das vivências de cidadania, consubstanciadas na identificação das falhas no funcionamento do estabelecimento de ensino e no desenvolvimento de processos partilhados de resolução que permitam ultrapassá-las, com benefício para toda a comunidade educativa.
Neste sentido, as escolas devem conceber os seus projectos educativos como projectos de cidadania global, que impliquem vivências de exercício da cidadania nos diferentes espaços curriculares, disciplinares e não disciplinares, bem como nos contextos extracurriculares e não formais.
A formação inicial e contínua de professores e de outros grupos de profissionais e de agentes educativos, direccionada para a aquisição de competências para trabalhar a Educação para a Cidadania Global na escola, é considerada essencial para garantir a transversalidade da dimensão da cidadania nos conteúdos programáticos, nas metodologias e nas atitudes, em todas as situações vividas nos estabelecimentos de ensino.
Nomeadamente para a abordagem dos diversos conteúdos temáticos da Educação para a Cidadania Global, a desenvolver na área de Formação Cívica, deve ser assegurada formação específica de docentes que lhes confira habilitação adequada para o efeito.
A concepção, a adaptação, o desenvolvimento e a difusão de recursos e de materiais, destinados aos diversos ciclos de ensino, são valorizados no referido documento para servir de apoio ao trabalho de professores e de alunos.
Retirado do Portal da Educação.

DILMA E A VIRAGEM DO MUNDO

A VIRAGEM HISTÓRICA DO MUNDO CONTEMPORÂNEO COMEÇOU NO BRASIL NO FIM DA PRIMEIRA DÉCADA DO SÉCULO XXI.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dilma_Rousseff

sábado, outubro 30

A CONFIGURAÇÃO ACTUAL DO MUNDO


A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em russo: Союз Советских Социалистических Республик - CCCP, também conhecida por União Soviética ou simplesmente URSS, foi um país de proporções continentais declaradamente socialista que existiu na Eurásia de 1922 a 1991.
Emergindo do Império Russo, após a Revolução Russa de 1917 e da Guerra Civil Russa (1918–1921), a URSS foi uma nação constituída por várias repúblicas soviéticas, porém a sinédoque Rússia, após a República Socialista Federativa Soviética da Rússia, é o maior estado constituinte. Os limites geográficos da União Soviética variaram com o tempo, porém após as últimas maiores anexações territoriais dos países bálticos do leste, da Polónia e da Bessarábia, território que se distribui entre a Moldávia e a Ucrânia e alguns outros territórios, durante a Segunda Guerra Mundial (1939/1945) até à sua dissolução, as suas fronteiras, aproximadamente, correspondem às do Império Russo, com exclusões da Polónia e da Finlândia.
Como o maior e mais antigo Estado constitucionalmente socialista em existência, a União Soviética tornou-se o modelo primário para futuras nações socialistas durante a Guerra Fria; o governo e a organização política do país foram definidos pelo único partido político, o Partido Comunista da União Soviética.
De 1945 até à sua dissolução em 1991, período conhecido como Guerra Fria, a União Soviética e os Estados Unidos da América foram as únicas duas superpotências mundiais que dominavam a agenda global da política económica, assuntos externos, operações militares, intercâmbios culturais, avanços científicos, incluindo o pioneirismo na exploração espacial, desportos, incluindo os Jogos Olímpicos e vários outros campeonatos mundiais.
A União Soviética, durante a Guerra Fria, tinha criado um poderoso bloco socialista que se estendia da Europa Oriental até à América, passando pelo Extremo Oriente, Sudeste Asiático, Médio Oriente e pela África. Esse bloco era a área de influência directa soviética e submetia-se aos comandos económicos, políticos e militares de Moscovo.

Inicialmente criada como a união de quatro Repúblicas Soviéticas Socialistas, a URSS cresceu até chegar a conter 15 Repúblicas Unidas em 1956: Arménia, Azerbaijão, Bielorrússia, Cazaquistão, Estónia, Geórgia, Letónia, Lituânia, Moldávia, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão, Turquemenistão, Ucrânia e Usbequistão. A Federação Russa é o Estado sucessor para a URSS, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A Rússia é o principal membro da Comunidade dos Estados Independentes e um reconhecido poder global, beneficiando dos seus emigrantes no estrangeiro e da sua força militar herdada da antiga União Soviética.
O Pacto de Varsóvia ou Tratado de Varsóvia foi uma aliança militar formada em 14 de Maio de 1955 pelos países socialistas do Leste Europeu e pela União Soviética, países estes que também ficaram conhecidos como bloco socialista. O tratado correspondente foi firmado na capital da Polónia, Varsóvia, e estabeleceu o alinhamento dos países-membros com Moscovo, estabelecendo um compromisso de ajuda mútua em caso de agressões militares.

O Pacto de Varsóvia foi instituído em contraponto à NATO ou OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma organização internacional de colaboração militar estabelecida em 1949 em suporte do Tratado do Atlântico Norte assinado em Washington a 4 de Abril de 1949, que uniu os países da Europa Ocidental e os Estados Unidos para prevenção e defesa dos países-membros contra eventuais ataques vindos do Leste Europeu, por vezes chamada Aliança Atlântica,

Durante a "Guerra Fria", várias vezes o mundo esteve à beira do terceiro conflito global.

Os países que fizeram parte do Pacto de Varsóvia eram alguns nos quais foram instituídos governos socialistas pela URSS, após a Segunda Guerra Mundial. União Soviética,  Alemanha Oriental, Bulgária, Hungria, Polónia, Checoslováquia, Roménia e Albânia que foram os países membros, sendo que a estrutura militar seguia as directrizes soviéticas. A Jugoslávia, por oposição do Marechal Tito, recusou-se a ingressar no bloco. Porém, as principais acções do Pacto foram dentro dos países-membros para a repressão de revoltas internas. Em 1956, tropas russas reprimiram manifestações populares na Hungria e na Polónia, e em 1968, na Checoslováquia, na chamada Primavera de Praga.
As mudanças no cenário geopolítico da Europa Oriental no final da década de 1980, com a queda dos governos socialistas, o fim do Muro de Berlim, o fim da Guerra Fria e a crise na URSS levaram à extinção do Pacto de Varsóvia em 31 de Março de 1991. O fim do Pacto de Varsóvia representou, também, o fim da Guerra Fria.
Seis anos depois, a NATO convidou a República Checa,  Hungria e Polónia a ingressarem na organização, demonstrando uma nova configuração das forças militares na Europa pós guerra fria.

quarta-feira, outubro 27

DE PRESTES JOÃO A MENDES PINTO

Lima de Freitas (1927 - 1998)


A lenda do Preste João das Índias é muito antiga, pois já Marco Polo a ela se referia no seu diário de viagens. São vários e muito antigos os testemunhos de que existiria no Oriente um rei cristão nestoriano chamado João, cujo império estaria situado na Ásia, segundo uns, ou em África, segundo outros. Os reis cristãos que combatiam o Islamismo fizeram várias tentativas para contactar este importante aliado no Oriente, mas sem resultados. Em 1486, João Afonso de Aveiro trouxe da costa de Benim uns enviados do rei daqueles terras que levou à presença de D. João II. Estes relataram ao rei português que, a vinte luas da costa, onde hoje é a Etiópia, habitava um rei muito poderoso do qual forneceram muitas informações que levaram os cosmógrafos portugueses a dizer que se tratava do Preste João. D. João II escolheu Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã, que mandou para África como seus emissários. Chegados ao Cairo, separam-se aqui, seguindo Pêro de Covilhã até à Índia. Quando este voltou, soube que o seu companheiro tinha morrido. Pêro da Covilhã dirigiu-se então à Abissínia, de onde o rei Naú nunca o deixou sair, dando-lhe o governo de um feudo. Impossibilitado de voltar a Portugal, onde tinha família, Pêro da Covilhã fundou uma nova família e teve muitos filhos. Tanto na Índia como depois em África, Pêro da Covilhã prestou importantes serviços a Portugal, recolhendo uma série de informações que foram cruciais para a presença dos Portugueses naquelas paragens. Os relatos de Pêro da Covilhã foram transmitidos ao padre Francisco Álvares, que com ele se encontrou na Abissínia, e que os deixou escritos para a posteridade quando voltou para Portugal. Ao que parece, Preste João nunca foi encontrado, mas a sua lenda e a vontade de o ter como aliado inspirou durante anos muitos Portugueses e motivou uma série de viagens que foram muito importantes na época dos Descobrimentos.






segunda-feira, outubro 18

A VIDA PRIVADA DE SALAZAR

António De Oliveira Salazar
Político e estadista: 1889 - 1970

                                                             
 António De Oliveira Salazar nasceu em Vimieiro, Santa Comba Dão, no ano de 1889. Frequentou o Seminário mas abandonou a carreira religiosa para se matricular na Faculdade de Direito de Coimbra em 1910. Em Coimbra no ano de 1914, concluiu o curso de Direito com distinção. 1918: Lente de Ciência Económica. - 1926: Após o golpe de 28 de Maio é convidado para Ministro das Finanças; ao fim de 13 dias renuncia ao cargo. - 1928: É novamente convidado para Ministro das Finanças; nunca mais abandonará o poder. - 1930: Presidente do Conselho de Ministros; cria a União Nacional. - 1933: Faz ratificar a nova Constituição (corporativa); cria a PVDE, polícia política; proíbe as oposições, impõe o partido único, regime totalitário. - 1936: Na Guerra Civil de Espanha apoia Franco; cria a Legião Portuguesa e a Mocidade Portuguesa; abre as colónias penais do Tarrafal e de Peniche - 1937: Escapa a um atentado dos anarquistas 1939: Iniciada a Segunda Guerra Mundial, Salazar conseguirá manter a neutralidade do país. - 1940: Exposição do Mundo Português. - 1943: Cede aos Aliados uma base militar nos Açores. - 1945: A PIDE substitui a PVDE. - 1949: Contra Norton de Matos, Carmona é reeleito Presidente da República; Portugal é admitido como membro da NATO. - 1951: Contra Quintão Meireles, Craveiro Lopes é eleito Presidente da República. - 1958: Contra Humberto Delgado, Américo Tomás é eleito Presidente da República; o Bispo do Porto critica a política salazarista - 1961: 22/01, assalto ao Sta. Maria; 04/02, assalto às prisões de Luanda; 11/03, tentativa de golpe de Botelho Moniz; 21/04, resolução da ONU condenando a política africana de Portugal; 19/12, a União Indiana invade Goa, Damão e Diu; 31/12/61 para 01/01/62, revolta de Beja. - 1963: O PAIGC abre nova frente de batalha na Guiné. - 1964:A FRELIMO inicia a luta pela independência, em Moçambique. - 1965: Crise académica; a PIDE assassina Delgado. - 1966: Salazar inaugura a ponte sobre o Tejo. - 1968: Salazar cai de uma cadeira e fica mentalmente diminuído. - 1970: Morte de Salazar.

A VIDA PRIVADA DE SALAZAR

POBRE, FILHO DE POBRES
Esta cadeira está desengonçada mas arrisco-me. Gosto muito de estar sentado aqui ao sol, no terraço do Forte de Santo António do Estoril, a contemplar a foz do Tejo e o oceano. É o meu único luxo, sou pobre, filho de pobres.
No exílio, uma vez a rainha D. Amélia disse que, se pudesse, de mim faria o rei de Portugal. Enganou-se. Eu gostava era de ter sido primeiro-ministro de um rei absoluto. Só consigo estar no Governo porque nunca saio da rotina. Como conseguiria aguentar estes anos todos a concorrer a eleições, a ir ao Parlamento responder a perguntas, a correr a inaugurar coisas? Não, rei não quis, nem quero ser; sou pobre, filho de pobres.
Tenho aversão a espalhafatos. Admirei o Mussolini, depois fartei-me dele. Cheguei a ter o seu retrato em cima da minha secretária, foi homem que fez obra. Mas irritou-me a forma aparatosa de estar na vida. Por motivo idêntico também não gostei do António Ferro, nem do Duarte Pacheco, nem do Henrique Galvão e nem do Humberto Delgado. Despeitados, os dois últimos acabaram por me trair. Ao Duarte Pacheco, que também fez obra, Deus mandou que morresse num desastre de viação. Mas ao António Ferro, fui eu que o deixei cair em 1949, os tempos eram outros e já me incomodava o estrondo da sua propaganda. Tanto, que depois privatizei a política da acção cultural. Sem encargos para o Estado, Azeredo Perdigão, o mecenas vermelhusco, com a sua Fundação Gulbenkian é que passou a ser o meu Ministro da Cultura. Mas disto ele não sabe, nem sequer suspeita. Contudo o Ferro, às vezes, até descobria coisas com interesse. Foi ele quem achou a minha imagem nos painéis de S. Vicente. Num lado o Infante de Sagres e eu no outro. Dois homens de gabinete. Um, a mandar as caravelas à descoberta do mundo. Outro, que é pobre, filho de pobres, a mandar Portugal seguir em frente.

MULHER, FAMÍLIA, FILHOS?

Os povos antigos, ou são tristes ou são cínicos; a nós, portugueses, coube ser tristes. É frase lapidar e assim descarto o cinismo que me assaca. Somos povo sorumbático mas, espicaçados, em heróis nos convertemos. Somos povo fincado à terra mas, espicaçados, metemo-nos a caminho e damos novos mundos ao mundo. Amália Rodrigues anda lá por fora a promover a tristeza que será nossa. Não gosto de fados mas a tristeza dá-me jeito. Sejam tristes, não me aborreçam, eu é que sei o que é bom para todos, eu é que sei quando devo espicaçar.
Aos fins-de-semana as minhas afilhadas chegam a meter em S. Bento uma dúzia de amigas e colegas. É um bando de raparigas a palrar de manhã até à noite. Isto, realmente, não é tristeza, mas algazarra que eu suporto, aliás a única. Verdes meninas a chilrear, deleite meu...
As minhas afilhadas... Nas férias, mandei a mais velha visitar a mãe. E ela foi, mas não correu bem o reencontro, quem me contou foi a Maria. A rapariga perguntou à mãe por que motivo é que a filha de uma simples rural vivia em Lisboa com o Presidente do Conselho. Perguntou mais: - Senhora, quem é afinal o meu pai?
E a mãe não soube o que responder, baixou os olhos, corou. Tola, foi sempre tola... Não posso perder tempo com estas coisas, importante é a incumbência que Deus me deu.
Mulher, família, filhos? Júlia Perestrelo, a fidalguinha, não aceitou a minha corte. Embora sendo eu estudante já com prestígio, continuava a ser ainda, e apenas, o filho do feitor de uma herdade da família. Quando me arrimei à Júlia, a sua mãe, que é também minha madrinha, apontou-me o dedo: - Não esqueça os tamancos do seu pai.
Pôs-me no meu lugar, pobre, filho de pobres. Mas se a fidalguinha não quis, ou não pôde querer, outras quiseram, outras querem. Cada vez eu sonho mais com as mulheres da minha vida: Felismina, a potrazinha de Viseu; Maria Laura, mulher do próximo e eu a cobiçá-la, pecador me confesso; Carmen Lara, a espanhola; Carolina, a viúva aristocrata, essa quase me leva ao matrimónio, os monárquicos queriam muito, travei a tempo; e Christine, a francesinha, vendaval de simpatia, sedução; e tantas outras... Ainda hoje, muitas delas, vêm ao castigo em S. Bento, até viscondessas e marquesas. Ali mesmo no jardim, moita frondosa, fidalgas e um pobre, filho de pobres, a revidar...
Deus isentou-me da paternidade porque me reservou para missão maior. Ainda bem, prefiro o respeito ao amor. Mas um homem tem as suas necessidades e fidalgas não há sempre ao meu dispor. O que é preciso é compostura. Algumas vezes, a meio da noite, Manuel, o meu guarda-costas de confiança, leva-me a um certo clube só para cavalheiros da alta, fica ali no Largo do Andaluz. Sem outras testemunhas, num quarto há sempre uma mulher nova e bonita à minha espera, muito asseada, primeira apanha. Talvez enfermeira, ou telefonista, ou costureira, coitaditas... Nada pergunto, apenas me sirvo. Tudo muito discreto, tudo pela surda. Já dizia S. Tomás de Aquino: se não podes ser casto, sê cauto ao menos.

MARIA

Maria fica enciumada com as cenas do jardim, sou eu a sua paixão secreta. Sei disso, mas não o demonstro, avassalo. Não se lamenta, não abre a boca, virgem fiel, fidelíssima, sempre à espera de quem se nega a desvirgá-la. Está comigo desde a "República dos Grilos", em Coimbra, onde já era a governanta. Fala-me é das serras e da neve, da Primavera a romper, do gado, do milho a desfolhar, das eiras, das alfaias e da lavoura. Também se queixa das criadas lerdas no casarão de S. Bento, e das vendedeiras do mercado que tentam roubá-la nos preços, que a cidade não tem emenda, é só ladrões. Gosto de ouvi-la, entretém-me. Está sempre a vigiar quem me visita, cão de guarda. Um dia aponto-lhe os Ministros que acabam de sair do meu gabinete e digo-lhe que eles deviam era estar na cadeia. Pergunta-me por que não os mando então prender. Respondo que não vale a pena, pois já roubaram tudo o que tinham para roubar. Ela sabe que roubar, eu cá não roubo. Apenas deixo que uns tantos roubem para que melhor me sirvam. Mas isto a Maria não pode entender, é muito ignorante.

JUVENTUDE

Passo oito anos no Seminário de Viseu. É a única oportunidade de um pobre, filho de pobres, poder estudar. Católico fui, sou e serei sempre, mas não vocacionado para a vida eclesiástica. Sei que Deus tem para mim outros desígnios. Renuncio ao Seminário e entro como vigilante e professor no Colégio da Via Sacra, do cónego Barreiros. Em Agosto de 1910, ainda em Viseu, dou uma conferência sobre a "Educação da Mocidade": - Sabei que a vontade deve ser educada no amor a Deus e ao próximo, no amor à família, à honra e à dignidade, ao trabalho e à verdade.
Sou muito aplaudido, ali há gente de boa cepa. Em Outubro do mesmo ano vou matricular-me na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. A mãe da Julinha é quem me paga a mesada, esmola ao filho do feitor.
Recordo a "República dos Grilos", onde também se hospeda o Manuel Cerejeira. E a Universidade, a discussão de ideias, os filhos de família a beberem as palavras de um pobre, filho de pobres... Distingo quatro ou mais grupos, cada qual a terçar armas pelas minúcias do respectivo ideário. Assim vão esquecendo o essencial que pode e deve unir a todos. Um dos grupos, de gente mais velha, só pensa na restauração monárquica com um príncipe do ramo miguelista. Bem os entendo: se voltar a monarquia, antes um rei absoluto do que um liberal. Um outro grupo é mais extremado, anos depois tomará como modelo ideal de Estado a Alemanha de Hitler. Um terceiro é apologista da violência física; mais tarde passará a falar em "burguesia" e "capitalismo" a ver se, à moda italiana, cativa o operariado; este grupo será um dia comandado por Rolão Preto, o qual acabará por fundar o Movimento Nacional-sindicalista para me fazer oposição, pois eu não corresponderei ao Chefe espalhafatoso pelo qual anseiam. Um quarto grupo, de gente moça, a que depois se juntarão Teotónio Pereira e Marcelo Caetano, já fala em corporativismo de inspiração cristã. Todos lêem, comentam, interpretam e reinterpretam os textos do António Sardinha, do Sorel e do Maurras, também as encíclicas de Leão XIII. Todos se dizem mais ou menos integralistas. É urgente aglutinar toda aquela gente. Começo por participar na reorganização do CADC - Centro Académico da Democracia Cristã. Em 1912 sou eleito 1.º secretário da direcção. O vice-presidente é o Manuel Cerejeira. Quem sempre me apoia é o Santos Costa; um dia será general e meu sempre fiel Ministro da Guerra. Entretanto concluo o curso de Direito e sou logo chamado para leccionar. Em 1918 já sou lente de Ciência Económica. Em 1921 sou eleito deputado pelo círculo de Guimarães nas listas do CCP - Centro Católico Português. Assisto a umas poucas sessões e logo renuncio ao mandato, tamanha é a confusão na Câmara. Depois, sem pressas, no CCP dedico-me a gerir as diferenças entre os vários grupos que o integram, como já integravam o CADC. Ponho em evidência aquilo que afinal a todos nos une: a fé inabalável em Deus, na Pátria e na Família. Conforme as circunstâncias o exigem, ora apoio um grupo, ora outro, contra os restantes. Já Maquiavel dizia que a máxima dos sábios dos nossos dias consiste em esperar o benefício do tempo.

O "28 DE MAIO"

O "28 de Maio" de 1926 como antecâmara do Estado Novo? Fantasias do António Ferro, pois aquele foi tempo em que se fez política com pistolas em cima da mesa... Eu apenas fiquei à espera da minha oportunidade, soube jogar com o benefício do tempo.
Não foi um golpe, foi um passeio de Braga até Lisboa, uma grande parada militar chefiada pelo Gen. Gomes da Costa. Da Esquerda à Direita todos pareciam felizes e contentes, só eu na expectativa. Compreende-se: todos estavam fartos do Partido Democrático, há 16 anos que os "bonzos" mamavam sozinhos na porca da política. A 30 de Maio o presidente Bernardino Machado aceita a demissão do primeiro-ministro, o "bonzo" António Maria da Silva. No dia seguinte o Bernardino entrega os seus poderes ao Alm. Mendes Cabeçadas, republicano conservador, porém um democrata, a sua pecha, pois a Democracia é justamente o regime que deixa emergir os piores instintos do ser humano. A ver vamos no que vai dar tudo isto, aguardo o benefício do tempo.
O Gen. Sinel de Cordes, um jacobino de Direita (assim o chamam os da Esquerda), faz as suas intrigas e o Alm. Mendes Cabeçadas apresenta a demissão a 18 de Junho. O Sinel, e outros como ele, exigem que o Gen. Gomes da Costa continue a chefiar a ditadura militar. Tudo se precipita. A ver vamos no que vai dar tudo isto, aguardo o benefício do tempo.
Mais intrigas do Sinel: a 9 de Julho o General Oscar Carmona é empossado como Presidente. Só posso rir quando me contam a anedota: o único sítio onde o Carmona mete o nariz, é no próprio lenço. Maledicência, ele é antes um homem a tentar o equilíbrio entre as várias forças de Direita que estão sempre a hostilizar-se, de um lado monárquicos, do outro republicanos. Se um dia eu for chamado para o Governo, Carmona ser-me-á de grande utilidade, estou em crer. A 11 de Julho o Gen. Gomes da Costa é desterrado para os Açores. A ver vamos no que vai dar tudo isto, aguardo o benefício do tempo.
O Sinel arrebenta com as Finanças públicas, défice de 700 mil contos, a Nação à beira da bancarrota. Ai os militares, os militares... Convidam-me e a 26 de Abril de 1928 sou empossado como Ministro das Finanças. Depois do "28 de Maio" é a segunda vez que isso acontece. Da primeira, no tempo do Cabeçadas, ao fim de 13 dias larguei o cargo por excesso de confusão na cabeça do presidente e falta de condições para o meu trabalho. Mas agora vou promover o desdobramento da ditadura militar em ditadura financeira, exijo direito de veto sobre toda e qualquer despesa pública. Digo, ao tomar posse: - Sei muito bem o que quero e para onde vou.
O Cerejeira manda-me um bilhete: "António, foi Deus que te chamou para salvar a Nação". Respondo com outro: "Manuel, quem me chamou foi o José Vicente de Freitas, o presidente do Governo". A ver vamos quem avassala quem...

ORÇAMENTO EQUILIBRADO
Nos corredores da Ditadura, militares conspiram com liberais (os "bonzos" recuperados) e conservadores para me derrubarem. Mas em 1930 já ninguém consegue remover-me, peguei de estaca. Não sou ainda o presidente do Conselho de Ministros, mas hei-de ser, não tarda muito. Com o auxílio do exército imponho novas contribuições. Veto despesas públicas e alcanço o equilíbrio do orçamento, liquido a dívida flutuante, estabilizo a moeda. Não me arredam, já não conseguem, ou eu ou a bancarrota.
Aperta-se o cinto, há quem se queixe da vida, pelos menos na capital. Mas nas aldeias ninguém se queixa. Ali, às vezes, não há trabalho, mas raramente eles deixam de comer. Ali, às vezes, falta dinheiro e roupa para vestir, mas há sempre uma côdea ou um caldo para enfrentar um novo dia. Prefiro o povo das aldeias.

A UNIÃO NACIONAL

Comecei por aforrar prestígio. Agora vou aplicá-lo na formação de um partido, a União Nacional. Deus, Pátria e Família é investimento seguro. Não eu, mas outros por mim, devem começar a fazer o alarde, nacionalistas que beberam do Integralismo. Eu ficarei na sombra, serei sempre o desejado, o encoberto, o Anjo da Guarda em retiro. Não vou desgastar a minha imagem junto da populaça, nem isso me apetece, omnipresença será um dos meus atributos. Embora com objectivos convergentes, sou o avesso do Mussolini.
Uma intentona malograda dos "reviralhistas" e logo se precipita o previsível: ainda em 1930 tomo posse como Presidente do Conselho de Ministros. Trato de oficializar a União Nacional. Declaro: - Temos uma doutrina e somos uma força!
Recomendo ao Cerejeira que encerre o Centro Católico Português. Saiba ele, e saibam todas as direitas, que a União Nacional passou a ser a Direita, a única.

CADA COISA EM SEU LUGAR

Exijo disciplina, um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar. O lugar dos políticos é na Política, o dos militares é nos quartéis, o do clero é na Igreja.
Em 1932 recomponho o Governo. Dos quatro generais dispenso três, apenas reservo o Carmona para continuar como Presidente da República. Se os três dispensados quiserem começar a conspirar contra mim, pois que o façam, atrevam-se eles a enfrentar o meu prestígio...
Na cerimónia de posse dos novos Ministros também está presente o Alfredo da Silva, o patrão da CUF - Companhia União Fabril. Não gosto dele, pior do que a exuberância é a sua ânsia de alargar império, de dia para dia mais cresce o número dos seus operários. E é nesta classe de infelizes que mais facilmente germina o bolchevismo, semente do Mal. Sem dar por isso, ele e outros como ele, estão a cavar a própria sepultura, talvez a minha e a da Nação. Cego, magnata cego...
Vou depois apresentar cumprimentos ao cardeal Cerejeira, é a praxe. Desde que foi encerrado o Centro Católico Português, ele tem vindo a agitar o nome do Cunha Leal para me substituir. Não discuto intrigas de sacristia. Declaro-lhe que só posso levar em consideração os interesses da Igreja desde que se conjuguem com os interesses do Estado Novo. Espero que entenda o recado. Perante Deus somos todos iguais, mas cada qual no seu lugar.

O ESTADO NOVO

Só vêem o que lhes passa diante do nariz, são incapazes de distinguir entre a letra e o espírito. A nova Constituição, ratificada em 1933, prevê eleições? Pois prevê, assim travo os republicanos conservadores e vagamente democratas que herdámos do "28 de Maio". Mas quem controla as eleições sou eu, é a União Nacional, através das restrições relativas ao grau de instrução, ao sexo e à propriedade do eleitorado. Isto não o vêem os conservadores, nem sequer os nacionais-sindicalistas do Rolão Preto. Entusiasmados com a vitória do nacional-socialismo na Alemanha, milhares de camisas azuis fazem a saudação romana e andam a agitar o povo de norte a sul da Nação, gritam e proclamam que os traí. É preciso pôr um ponto final nestas arruaças, para isso contarei com o tácito apoio dos conservadores, militares e civis. Chamo ao meu gabinete o Teotónio Pereira e o Manuel Múrias. Ouvem-me com atenção e tratam de esfacelar, por dentro, o Movimento Nacional-Sindicalista a que pertencem, colocando o Rolão Preto em minoria. Assim isolado, logo o mando prender e expulso-o da Nação. Mas ao mesmo tempo abro as portas da União Nacional aos órfãos de camisa azul. Apenas sugiro que vistam outras. Para os consolar, também eu começo a fazer a saudação romana. Ficam aliviados e contentes. Serão eles os grandes activistas do Estado Novo.
Em 1936, nas comemorações do 10.º aniversário da Revolução Nacional, declaro: - Às almas dilaceradas pela dúvida e o negativismo do século procurámos restituir o conforto das grandes certezas. Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua história; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.
Infelizes ficam os conservadores. Se a letra da Constituição é o que é, só agora lhe entrevêem o espírito: antiliberal, anti parlamentar e antidemocrático. Nela incorporo o Acto Colonial e o Estatuto Nacional de Trabalho. Sidónio Pais, coitado, surgiu antes de tempo. Mas intuiu o caminho que estamos hoje a desbravar. Esta é a primeira constituição corporativa do mundo: sob o arbítrio do Estado forte, a conjugação dos grémios e dos sindicatos, do Capital produtivo e do Trabalho para o engrandecimento da Pátria. Assim levanto uma barragem contra a luta de classes, bandeira dos comunistas.
E os padres? Quando é que sobem ao púlpito a louvar o Estado Novo? Aguardemos o benefício do tempo...


AS OBRAS PÚBLICAS

Uma barragem... Sinto as pernas entorpecidas, levanto-me, passeio pelo terraço do Forte. As barragens, o plano hídrico nacional... E ainda há alguns maledicentes que me chamam de retrógrado... Tiro os binóculos do estojo e avisto um barquinho que demanda a barra. Se antes da vazante, que não tarda, eles não conseguirem alcançar S. Julião, serão arrastados para o alto mar. A montante, sobre o Tejo, não a vejo, mas sei que lá está a ponte que leva o meu nome, não me fazem favor por isso, fui eu que mandei construir, fui eu que a inaugurei em 1966. Agora, o que me apetecia era ouvir um filme. Não ver, mas ouvir, que eu não tenho pachorra para ir ao cinema. Maria e as amigas é que vão às matinées e depois contam-me tudo. Manta sobre as pernas, um bule de chá, são as noitadas em S. Bento. Gostei muito de "Música no Coração".
Volto a sentar-me. A cadeira balança e range, mas lá se aguenta. Um dia destes ainda me prega uma partida.

SAFANÃO A TEMPO

Era fim de Agosto e as uvas estavam bonitas, comecei a vindimar. O meu Pai deu-me um safanão a tempo e eu parei. Tirou um bago do cacho que eu acabara de cortar, deu-me a provar. Trinquei, logo cuspi, era azedo. Assim comecei a aprender que tudo tem o seu tempo, tudo obedece a regras, Lei suprema quer para a Natureza, quer para a sociedade dos homens, que é outra forma da Natureza. Quem não respeita as regras é desordeiro; mas quem sempre as põe em causa e delas troça, é ateu a infectar os que estão perto, anarquismo ou comunismo, danação.
Os grandes homens, os predestinados, os grandes chefes, não se embaraçam com preconceitos, com fórmulas, com preocupações de moral política. A violência pode ter vantagens mas não na nossa raça nem nos nossos hábitos. Em Portugal não há homens sistematicamente violentos. Aqui, há que governar tendo sempre em conta esse sentimentalismo doentio a que chamamos bondade. Para defender a Pátria, aqui não é preciso usar da violência. Um safanão a tempo é quanto basta.
Nas revistas e nos jornais e nas emissoras radiofónicas e nos teatros e nos cinemas, o lápis azul e a tesoura da Censura prévia cortam os textos e as imagens fora de prumo, há regras a cumprir, safanão a tempo. Nas livrarias, a polícia apreende os livros subversivos, há regras a cumprir, safanão a tempo.
Se abandonados à liberdade, os homens logo se convertem em libertinos. Reforço a proibição das greves e em 1933 fundo a PVDE - Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. Agentes italianos e depois uns alemães, com as suas técnicas, virão ajudar-nos a torná-la mais eficaz. Rapidamente a PVDE estende uma rede de informadores de norte a sul da Nação, nas cidades, nas vilas e até em aldeias. É fácil, muita gente ambiciona ganhar mais uns tostões.
A função primeira da PVDE é prevenir as tentações de libertinagem, é intimidar não só os ímpios e os incautos à beira da impiedade, mas também os respectivos pais, e cônjuge, e filhos, e irmãos, e colegas, e amigos, todos os que estejam em perigo de contágio. Subversão é peste, há que meter a Nação em quarentena. E meto, mas alguns escapam, danados que tentam danar os outros, cães raivosos.
Reorganizo as forças militarizadas, a GNR - Guarda Nacional Republicana, a PSP - Polícia de Segurança Pública, e a Guarda Fiscal. E chamo ao meu gabinete, primeiro o Agostinho Lourenço, director da PVDE; mais tarde o Silva Pais, director da PIDE. Alerto: - Mais vale um safanão a tempo do que deixar o Diabo à solta no meio do povo.
Contam-me como fazem. Localizam onde pousa um dos suspeitos. A meio da noite arrombam a porta, dão-lhe voz de prisão e uns sopapos, arrastam-no para a sede, interrogatório, safanão primeiro. Se o subversivo conta o que sabe, é porque já está a caminho da salvação. Se não fala, safanão segundo, espancamento. Se calado continua, safanão terceiro, é a penitência da estátua, dias e noites obrigado a ficar sempre de pé, até que as suas pernas se transformem em dois trambolhos. Variante do terceiro safanão é a penitência do sono, dias e noites sem dormir; quando cabeceia, logo acendem um holofote contra os seus olhos. Um dos possessos, ao fim de quinze dias e quinze noites sem dormir, começou a beijar a parede, alucinações, pensava que estava na cama com a mulher. Depois entrou em coma. Normalmente, depois do terceiro safanão, os inconfessos entram em coma. Ninguém os mata, eles é que se deixam morrer porque se negam à salvação.
Alguns sobrevivem ao terceiro safanão, mas nada mais podemos fazer por eles, almas penadas já são em vida. Com ou sem julgamento são despejados em masmorras. Em 1936 inauguro as colónias penais do Tarrafal e de Peniche. É no Tarrafal que vai morrer Bento Gonçalves, secretário do Partido Comunista. Outros seguem-lhe o exemplo; no Tarrafal e em Peniche, no Aljube e em Caxias.
Não, não é preciso usar da violência, somos um povo de brandos costumes. Aqui, para governar, um safanão a tempo é quanto basta.


A IBÉRIA

1936: agitação vermelha vaza de Espanha para Portugal. Reagimos: barreira militar, Legião Portuguesa, cruz de Aviz, invocação de Aljubarrota! Mando que os meus legionários vistam camisas verdes, assim não se confundem nem com a milícia do Rolão Preto, nem com a Falange do Franco. São convocados os funcionários do Estado e todos aderem à Legião; os incapazes de exercícios militares, juram fidelidade ao regime.
No mesmo ano crio a Mocidade Portuguesa, também camisas verdes. Ali os rapazes aprendem a amar e a defender a Pátria, bravos lusitos. E nas escolas imponho um livro único, passaporte para Deus, Pátria e Família.
Nacionalistas, legionários e lusitos, de braços estendidos em saudação romana, andam sempre a marchar pelas ruas, congregam multidões, fazem grande alarido:
- Quem vive?
- Portugal, Portugal, Portugal!
- Quem manda?
- Salazar, Salazar, Salazar!
Contudo, para além da algazarra à superfície, detecto o profundo silêncio da Nação. Somos tristes, eu o disse, mas há aqui um excesso de tristeza. E isto é perigoso, a caldeira do silêncio também pode explodir. Há que montar uma válvula de escape.
Chamo ao meu gabinete os homens da Censura. Digo-lhes que aliviem o rigor sobre as revistas do Parque Mayer, que alarguem o espartilho e deixem passar as alusões à minha pessoa, desde que não sejam ofensivas. E o público sacode-se a rir com os números do António da Calçada ou do Santo Antoninho da Estrela. Só mando cortar O Botas. É alcunha de mau gosto. Não se pode brincar com um defeito físico que me obriga a usar botas ortopédicas, daquelas de elástico, para disfarçar.
Também chamo ao meu gabinete o Agostinho Lourenço. Digo-lhe o que direi mais tarde ao Silva Pais: - É conveniente que os descontentes tenham sítios onde possam desabafar sem perturbar mais ninguém. Os Cafés podem servir para isso.
Quanto mais estrondosas são as gargalhadas no Parque Mayer e quanto mais se conspira nos Cafés, mais avassala a minha ausência, omnipresença.

A LUTA

Por três vezes o Maligno tenta abater-me.
Primeira: em Janeiro de 1934 os comunistas convocam greve geral e tentam implantar um soviete na Marinha Grande. São cercados e vencidos.
Segunda: em Setembro de 1936 marinheiros comunistas rebelam-se. Mando que a artilharia da costa os bombardeie e afunde.
Terceira: em Julho de 1937, quando me dirijo para a missa, sofro um atentado à bomba mas escapo ileso. Bem sei que foram os anarco-sindicalistas. Mas eles já são tão poucos, que não vale a pena mencioná-los. Acuso os comunistas. Daqui para a frente, quem me atacar passa a ser comunista, eles é que são o inimigo principal.
Consequências do atentado são a comoção nacional, as mensagens de solidariedade, os cortejos, as manifestações, as missas Te Deum. Uma única vez surjo em público, a agradecer. Não me apetece, sou avesso a estas coisas, mas lá declaro à multidão: - Somos indestrutíveis! Porque a Providência assim o destina e na Terra vós o quereis.
Ungido de Deus? Não sei, talvez... Sei apenas que, quatro séculos antes de nascer, eu já fora colocado lado a lado com o Infante de Sagres, predestinação...

AS GUERRAS E OS OUTROS

Nacionalistas espanhóis começam a gritar os nomes de Primo de Rivera, Sanjurjo e Franco e rebelam-se contra o Governo dos vermelhos. Assumo também a pasta dos Negócios Estrangeiros. Temo que, se vencerem os rebeldes, queiram mais tarde anexar Portugal como província espanhola, ambição que herdaram dos Filipes. É perigo menor e longínquo. Mas se venceram os vermelhos, o bolchevismo alastrará de imediato a Portugal, quer por intervenção militar, quer por contágio. Perigo maior, de vida ou de morte, é pois a vitória dos vermelhos. Há que ajudar a derrotá-los. E ajudamos: Numa primeira fase ponho à disposição dos rebeldes os nossos portos e os nossos caminhos de ferro para o aprovisionamento de víveres, armas e munições. Numa segunda fase, também permito que os meus legionários arregimentem 8000 voluntários para combater o bolchevismo em Espanha. São os nossos Viriatos.
A Alemanha e a Itália apoiam os nacionalistas espanhóis. A França e a Inglaterra optam pela não intervenção e assim condenam à derrota os vermelhos. Para alguma coisa havia de nos servir a Democracia nesses dois países...
Vencedor da guerra civil, e incentivado pelo falangista Serrano Suñer, Franco pensará agora anexar-nos. Mando avisá-lo: mal as suas tropas se concentrem na fronteira, de imediato accionarei o velho Tratado de Aliança entre Portugal e o Reino Unido. Repare ele que a Segunda Guerra Mundial não tarda aí, a guerra civil que devastou a sua Espanha foi o ensaio geral. E que se os nacionalistas espanhóis se sentem obrigados a alinhar com a Alemanha, eu sinto-me obrigado a alinhar com a Inglaterra em virtude da nossa Aliança. Se tal acontecer, sacrificados aos interesses de outras potências serão os nossos povos. Realço ainda que os regimes de Espanha e Portugal são idênticos: católicos, autoritários, antiliberais, antiparlamentares e antidemocráticos. Será sinal que Deus nos manda para se constituir aquém Pirinéus um bloco neutral, nem a favor da Grã-Bretanha, nem a favor da Alemanha, mas só a nosso favor. Assim defenderemos os povos da Península e a sobrevivência dos nossos regimes. Ou não estais vós, espanhóis, cansados de tanta guerra? Eu, por meu lado, para evitar envolver-me no próximo
conflito europeu, já declarei publicamente: - Somos sobretudo uma potência atlântica, presos pela natureza à Espanha, política e economicamente debruçados sobre o mar e as colónias.
Depois de muitas discussões, de avanços e recuos, a 13 de Março de 1939 consigo finalmente assinar com a Espanha o Tratado de Amizade e Não Agressão. Vencido o bolchevismo espanhol, que era o perigo maior, assim desarmo o menor. Ao mesmo tempo alivio a pressão britânica sobre o meu Governo; por causa de Gibraltar e do acesso ao Mediterrâneo, convém-lhes a neutralidade da Península. E a Alemanha desistirá de forçar a Espanha a entrar em guerra.
Há muitas formas de matar pulgas, diria a Maria...

O ESTADO E A IGREJA

Em 1940 assino a Concordata com a Santa Sé. Não vou restaurar o poder da Igreja, não lhe devolvo os seus haveres expropriados pela República em 1911, não vou abolir o divórcio. Mas isento a Igreja e o clero do pagamento de impostos ou contribuições, quaisquer que sejam. Deus, Pátria e Família, é evidente, mas quem manda sou eu! É um bom acordo para a Igreja e o Manuel Cerejeira sabe disso.
Na carta pastoral de 1942, bodas de prata das aparições de Fátima, os bispos já dizem que, nas mudanças operadas da Primeira República para o Estado Novo, poder-se-á ver o dedo de Deus.
E em 1945, a propósito de uma outra visão da Irmã Lúcia, o Cerejeira escreve-me: "O facto de ser a nossa paz um favor do Céu (predito pela Irmã Lúcia), não te tira nem diminui o mérito. Pelo contrário, faz de ti um eleito, quase um ungido de Deus. Foste tu o escolhido para realizar o milagre".
Até que enfim...

A EXPOSIÇÃO DO MUNDO PORTUGUÊS

"A nossa paz...", dirá a Irmã Lúcia. Antecipo: a paz que eu forjei e o passado glorioso que me forjou. Os heróis é que fazem a História, não são os povos. Felizes os povos que têm heróis a conduzi-los. Ontem demos novos mundos ao mundo, hoje somos um oásis de paz num mundo em guerra. É isso mesmo que torno evidente em 1940, com a Exposição do Mundo Português. Ali mesmo, à beira-Tejo, não muito longe de onde partiram as naus do Vasco da Gama. Comemoramos oito séculos sobre a Fundação da nacionalidade em 1140, e três sobre a da Restauração, em 1640. Dois homens me ajudam a planear a Exposição: António Ferro com epopeias escritas, faladas, esculpidas e pintadas e Duarte Pacheco com a imponência dos pavilhões. Um, é o meu Ministro da Propaganda. Outro, é o meu Ministro das Obras Públicas, que já as fez sumptuosas, como convém que sejam as do Estado. Dois frenéticos que, por ora, me servem bem.
Mando que na Exposição também sejam alojados, em palhoças, uns tantos pretos e pretas, adultos e crianças, primitivos que retirámos da selva... Que todos admirem a obra dos nossos missionários em África! Aquele pretos, bem doutrinados, bons cristãos podem ainda vir a ser. De segunda ou terceira, porém cristãos.

A NEUTRALIDADE

Durante a guerra a Grã-Bretanha reduz drasticamente as suas compras a Portugal. Não posso morrer à míngua e começo a vender volfrâmio e estanho aos alemães. Os britânicos protestam e eu também passo a vender-lhes volfrâmio e estanho. Bem sei que isto vai ter de parar um dia, ou vendo para um lado, ou vendo para o outro. Mas enquanto puder vender para os dois, venderei. Todo o dinheiro traz agarrado a si miséria e sangue. Mas não tem cheiro.

REFUGIADOS JUDEUS

Por causa do volfrâmio, não pensem os alemães que rompi a neutralidade e passei para o lado deles. Andam à caça de judeus? Pois saibam eles e vejam os ingleses que recebo milhares de refugiados judeus em trânsito para a América. E que não os interno em campos de concentração, mas hospedo-os em hotéis perto do mar, nas Caldas da Rainha, na Figueira da Foz. Mas quando, em 1945, Hitler se suicidar, para escândalo dos ingleses mandarei pôr a bandeira nacional a meia haste. Somos um povo de brandos costumes, matriz cristã, fazer bem sem olhar a quem. Porém independentes, sempre. Em nós ninguém manda, nunca! Ontem não mandaram os espanhóis, eles que se lembrem de Aljubarrota. Durante a guerra, nem alemães, nem ingleses mandam em nós. No pós guerra, nem americanos, nem ingleses hão-de mandar. Ninguém, nunca!
Não posso é consentir que, durante a guerra, por conta própria, sem ordem superior, Aristides Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus, esteja a passar milhares e milhares de vistos a refugiados judeus. Para se tirar o apetite a outros possíveis prevaricadores, mando que seja demitido e punido de forma exemplar! Ai este sentimentalismo doentio a que chamamos bondade...

ESPIONAGEM
Alemães e ingleses precisam espiar-se uns aos outros, precisam conversar secretamente uns com os outros, e estão a usar Lisboa como base operacional. Pois que usem, desde que não interfiram com a nossa política interna e para essa eventualidade a PVDE está alertada. É forma de evidenciar a nossa neutralidade, é forma de arrecadar mais algumas divisas.

SOBREVIVÊNCIA

Sou muito instado mas adio a decisão, o que provoca acessos de fúria naquele gordo inglês fumador de charutos. Só em 1943, quando vejo que a Alemanha já não pode ganhar a guerra, é que cedo aos Aliados uma base militar nos Açores.
A imprensa deles insulta-me, que eu sou nazi-fascista, que nós fazemos a saudação romana, que a Legião Portuguesa festejou publicamente as vitórias do Eixo, que os legionários são os meus "camisas negras", apesar de verdes serem elas. Os cães ladram mas a caravana passa... Acabo de garantir a sobrevivência do meu regime.
No pós-guerra, na Europa ocidental são muito apreciados os legalismos. Consequência: o número de possessos que faz o jogo da Rússia, não pára ali de aumentar. Inevitável é outra guerra. Aguardo o benefício do tempo enquanto vou encobrindo o que se passa por aqui: em 1945 transformo a PVDE em PIDE - Polícia Internacional e de Defesa do Estado e mando organizar os Tribunais Plenários. Nestes, antes dos julgamentos, já estão ditadas as sentenças; traição à Pátria pode dar até 20 anos de cadeia; os lugares para a assistência são todos ocupados por agentes da PIDE; advogados e testemunhas de defesa, se exorbitam, são calados à força. Depois de cumpridas as penas, os condenados podem levar mais uns anitos de reclusão, higiénicas medidas de segurança.
Nos finais da guerra, apesar dos safanões, os comunistas cá de dentro (eles, sempre eles!) provocam agitação e greves de certa monta, mas aguento-me. Em 1947 outros comunistas sabotam-me aviões na base de Sintra. Entretanto é levantado o muro de Berlim e começa a guerra, embora fria. O meu regime foi sempre anticomunista. Em 1949 Portugal é admitido como membro da NATO. Valeu a pena aguardar o benefício do tempo...
Só para inglês ver, também em 1949 finjo eleições livres para a Presidência da República. O candidato da Oposição é o Norton de Matos, um general maçom. Alega que nós controlamos os cadernos eleitorais e as mesas de voto e por isso desiste à boca das urnas. É reeleito o meu candidato General Carmona; de sete em sete anos, desde 1928, é o que lhe acontece; mas esta foi a reeleição mais espinhosa.
Coitado do Carmona, vem a falecer em 1951 e eu tenho de convocar novas eleições. O candidato "reviralhista" é o Almirante Quintão Meireles. Recusamos a candidatura de Rui Luís Gomes, o comunista. Ele, e a sua quadrilha, levam até uns safanões a tempo. Naturalmente ganha o meu candidato, o General Craveiro Lopes. Lá fora os jornalistas continuam a ladrar, mas a caravana continua a passar.

VAZANTE

A caravana passa... Outra vez me levanto e passeio pelo terraço. O barquinho não conseguiu alcançar S. Julião da Barra e a vazante começa a arrastá-lo para o alto mar.
Somos pobres, filhos de pobres. O Estado tem de ser forte e imponente para compensar a pobreza natural do nosso povo. Cuidem eles das suas hortas que do Estado cuido eu. Admirem e orgulhem-se das obras que mandei o Duarte Pacheco, e outros, construir de norte a sul da Nação. Admirem e orgulhem-se do Instituto Superior Técnico, do Estádio Nacional e da auto-estrada que o liga a Lisboa; admirem e orgulhem-se do Hospital Santa Maria em Lisboa, e do Hospital S. João no Porto, e dos Palácios da Justiça em Lisboa e no Porto, e das pontes, e dos viadutos, e das barragens do Cávado-Rabagão, e da Idanha-a-Nova, e do Castelo de Bode.
Para admirar e orgulhar-se da nossa Pátria heróica, do nosso Estado forte, não é preciso ser-se instruído. Instrução, para quê? Basta saber ler e escrever e não é preciso que sejam todos. Se tiverem alguma dificuldade de entendimento, lá está o senhor padre para os aconselhar e orientar. Para as primeiras letras, e só para essas, mando construir uma rede de escolas pela Nação fora, e mais não é preciso. Se fôssemos todos doutores, quem iria amanhar a terra, quem iria amassar o pão, quem iria assentar tijolos? Não permito que a falsa sabedoria perturbe a inocência do nosso povo. Esconjuro a tal universidade popular desse tal Bento Caraça; é ateu, interfere com a lei divina, é comunista disfarçado de matemático, é demitido e preso.
Manda quem pode e obedece quem deve, esta é a ordem natural das coisas. Não mexo na propriedade, ela é intangível. Cobiçar os bens do próximo é tentação assoprada pelos comunistas.
Bem sei que é preciso fomentar a produção industrial. Mas o fomento é planeado por mim e aplicado conforme o Estado exige, não permito que se ponha em perigo o equilíbrio orçamental que tanto me custou a alcançar. Observo que o mundo campestre provoca os sorrisos desdenhosos da economia industrial. Por mim, se tivesse de haver competição, continuaria a preferir a agricultura à indústria. Mas se eles querem enriquecer depressa, não chegam lá pela agricultura. A faina agrícola é, acima de tudo, uma vocação de pobres. E o nosso é um povo de pobres, filhos de pobres. As nossas raízes mergulham fundo no torrão natal.
Não admito reivindicações salariais e muito menos greves, isso é obra de comunistas. Se a economia industrial está a enriquecer uns poucos e a levar um excesso de pobreza a muitos, só a mim cabe corrigir o excesso, cristão eu sou. Doo terrenos para facilitar a construção de casas com rendas limitadas. Pela província, de norte a sul mando construir as Casas do Povo. E nas grandes cidades mando edificar bairros sociais. No da Encarnação, em Lisboa, são pequenas vivendas por entre árvores, cada qual com a sua horta para plantar couves e semear batatas. Que ao menos se lembrem eles das courelas que trocaram pela cidade, à procura de melhor vida que, afinal, não será assim tão boa...
Outra vez assesto os meus binóculos. O barquinho cada vez está mais ao largo, corre o perigo de ser engolido pelas vagas do mar alto. Quem lhe pode lançar mão?
E fogem, fogem dos campos, vêm para as cidades, vão para o Brasil, vão para a Europa e a maioria dos emigrantes é clandestina. Depois da guerra, além dos Pirinéus tudo parece um mar de rosas. Odeio a Rússia e os comunistas, mas também não gosto dos americanos. Não, não! aqui não quero um Plano Marshall, pequeninos mas orgulhosos, escorados estamos por um passado glorioso. Não consigo é evitar o mar de rosas, não há barragem que o detenha, afoga-nos, poucos são os que reparam nos espinhos. De Setúbal a Braga, pelo litoral, as indústrias surgem como cogumelos depois da chuva. Em Lisboa, e no Porto, começa a haver mais gente a escrevinhar nos escritórios do que operários a produzir. Tudo muda e já não consigo travar a mudança. E os escreventes cada vez lêem mais livros e jornais, e vão a cursos nocturnos, e ouvem telefonia com ondas curtas para apanhar o estrangeiro, e vêem filmes, e fundam cineclubes, e arrogam-se o direito de exigir melhor distribuição dos benefícios acrescidos. Também os operários entram no coro, inquinados já estão uns e outros pelo comunismo.
Para evitar a inflação e os maus costumes, continuo a impor vida frugal a quem trabalha por conta d’outrem. Em consequência, são os novos Bancos e as novas Seguradoras que estão a comer a grande fatia do bolo novo, não é o Estado. Nisso não reparam os pobres diabos quando rosnam contra o Estado...
Mas uma coisa é ouvir o que nos contam, outra é ver com os próprios olhos. Chamo o Manuel e, dentro do Mercedes com os vidros foscos, às onze da noite seguimos lentamente ao longo da Avenida. É fim de semana, é Verão, e as esplanadas estão cheias. Pergunto:
- Manuel, o que estão eles a beber?
- Ó Senhor Presidente, é cervejas, é gasosas, é pirolitos, é laranjadas...
- Mas isso é muito caro, não é?
- Ó Senhor Presidente, é 25, é 15, é 10 tostões.
Pois, pois, já estou a entender... Queixam-se que não têm dinheiro e só fazem extravagâncias...
Se fossem apenas operários e escreventes a rosnar, com essa gentinha podia eu... O pior é que já começam a surgir brechas na União Nacional e no Estado. Henrique Galvão, que foi dos meus, descambou de vez para o "reviralho". Começou por alinhar com o Quintão Meireles e agora, ao lado do Cunha Leal (aquele do Cerejeira de antigamente), rosna que há compadrio dos grandes grupos financeiros com muitas das autoridades civis do meu regime. A Censura corta mas sei que, no fundo, têm razão; o dinheiro não tem cheiro, por baixo do pano impossível é deter o seu fluxo.
Também oficiais formados na América pela NATO, entre eles o Humberto Delgado (outro que foi sempre dos meus), começam a morder o Santos Costa, o meu sempre fiel Ministro da Guerra. Dizem que o aparelho militar português é arcaico e é urgente renovar as Forças Armadas, também a sociedade portuguesa. E até o Craveiro Lopes, o meu Presidente da República, parece que lhes dá ouvidos... O Craveiro não pode ser candidato à reeleição, e tenho dito! Saudades do velho Carmona...
Até o Marcelo Caetano (que foi o meu Comissário da Mocidade Portuguesa, e o meu Ministro das Colónias, e o meu presidente da Câmara Corporativa e é o meu Ministro da Presidência desde 1955) faz conluio com os seus ex-alunos que já ocupam lugares cimeiros nas grandes empresas. Parecem todos apostados em renovar o regime, mas por dentro. Não me atacam frontalmente, tentam é dissolver-me. Quererão fazer hoje comigo, o que ontem eu fiz com o Rolão Preto? Enganam-se, sou um osso muito mais duro de roer...
Tudo muda e é-me difícil travar a mudança. Eu queria que muitas e muitas famílias portuguesas lavrassem as terras da nossa África, nisso investi. Assim fiz na Cela e em Matala, em Angola. Assim fiz no vale do Limpopo, em Moçambique. Até grandes barragens eu mandei construir, a de Cambambe em Angola e a de Cabora-Bassa em Moçambique. Porém, selvagens ignorantes, que se diziam donos da terra, passaram a hostilizar as famílias portuguesas. Muitas, talvez a maior parte, acabaram por desertar para as cidades. Assim desandam as colónias... A Guiné, hoje, é mais uma colónia da CUF do que uma colónia de Portugal. O mal é estar eu aqui tão longe. Viajar não me apetece, de Lisboa a Santa Comba já me cansa, quanto mais a Bissau, Luanda ou Lourenço Marques... Tivesse eu o dom da ubiquidade e tudo seria diferente.
Tenho sonhado muito com a Christine Garnier, não sei porquê. Ou talvez saiba, é esta minha ânsia de interregno, a minha loira e decidida francesinha, jornalista que em 1951 veio para me entrevistar e acabou por me aquecer a cama e a alma... Para fugirmos à mal-encarada vigilância da Maria, até fomos para Santa Comba passar férias. Também porque a minha governanta, muito sovina, só lhe dava carapaus grelhados, umas vezes com batatas, outras com arroz de grelos...
Estou cansado, saudades tenho do antigamente. Estou preso às ideias do passado, sinto vontade de me ir embora, não me dou com a nova mentalidade, isto é só para safados.
No horizonte não vejo mais o barquinho. Terá sido engolido pelas ondas?

HUMBERTO DELGADO

Volto a sentar-me e a cadeira quase se desmonta. Vou mandar arranjá-la. Não substituí-la, que eu nada desperdiço, tudo aproveito.
Os ingleses, finalmente, parecem apoiar o meu regime, embora aconselhem que o liberalize. Em 1957 mandam a rainha Isabel II a visitar-nos. Ela trata com excessiva deferência o Craveiro Lopes. Bem entendo os ingleses, papas e bolos para enganar os tolos... Mas não, já disse que não, o Craveiro não! Recuso a infinita gama de cinzentos, essa é armadilha do Diabo. Para mim é branco ou preto, o Bem ou o Mal. O meu candidato é o Almirante Américo Tomás, dócil e bronco, não quero viver em sobressaltos.
Tocado pelos americanos, Humberto Delgado passa a ser o candidato da Oposição. É o próprio General Coca Cola, mas até os comunistas acabam por apoiá-lo. É desassombrado, é o mais novo general das Forças Armadas portuguesas, coragem física e irreverência não lhe faltam. Declara que, se for eleito, obviamente me demite. Tem até o desplante de frisar o obviamente. Apesar da PIDE, das cargas da GNR e da PSP, em nome da Liberdade arrasta multidões atrás de si. Já lhe chamam o General Sem Medo. Desde o Porto até Lisboa, desde o Alentejo até ao Minho. E os arruaceiros parecem não ter medo das forças da ordem, respondem à pedrada, subversão.
É sismo, é terramoto, rompeu-se um dique e a Nação pode vir a ficar submersa.
Cerro fileiras para salvar a Pátria. Santos Costa põe a tropa de prevenção e os "craveiristas" acovardam-se, não respingam. Na campanha eleitoral de 1949 um dos meus dissera "daqui não saímos, nem a tiros, nem a votos". Não o digo mas penso o mesmo. Quem controla os cadernos eleitorais e as mesas de voto ainda somos nós e em 1958 quem ganha as eleições para a Presidência da República é o Almirante Américo Tomás, obviamente. Não posso deixar de rir...
No rescaldo, um dignitário da Igreja, D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, atreve-se a contestar a minha autoridade. O Cerejeira desterra-o para Roma, mas já vai tarde, fez grandes estragos nas relações entre a Igreja e o Estado. Deixo que amorteça a onda de choque e em 1959 demito o Delgado de todos as suas funções militares. Nas vésperas de ser preso corre a asilar-se na Embaixada do Brasil e depois segue para o exílio naquele país.
A Nação está devastada. Não sei se terei forças para reconstruí-la. Ainda faço uma alteração constitucional: a eleição para a Presidência da República não será mais por sufrágio directo, mas por sufrágio orgânico. Casa arrombada, trancas à porta...
Em 1960 um comunista louco desvia um avião da linha Casablanca – Lisboa e espalha panfletos subversivos sobre a capital. Também o Álvaro Cunhal e outros cães raivosos conseguem fugir do Forte de Peniche, tudo me falha.
Não gosto da minha vida. Em vez de governar, gostaria de estar em Santa Comba, entre os campos e as vinhas. Mas não encontro quem possa substituir-me.

1961: O PIOR ANO DA VIDA DE SALAZAR

A 22 de Janeiro, na América Central, o Henrique Galvão assalta o paquete Sta. Maria (Santa Liberdade, berram eles...). É pirataria das antigas, mas as outras Nações assim não o entendem. O Brasil dá asilo político aos piratas.
A 4 de Fevereiro um bando de selvagens assalta as prisões de Luanda, querem libertar os presos políticos. Espicaçados, a reacção dos portugueses é heróica: de muceque em muceque, partem à caça dos terroristas.
11 de Março... O General Botelho Moniz é um militar "craveirista", eu bem sabia disso. Mas quis neutralizá-los, convidei-o para meu Ministro da Guerra e muito me custou pôr de lado o Santos Costa. Enganei-me, isto já não funciona como dantes. A 11 de Março o Américo Tomás telefona-me a avisar que o Botelho Moniz e outros generais têm um golpe armado para me apear. Neste preciso momento os golpistas estão a assistir a um jogo de futebol entre as selecções militares de Portugal e Marrocos. Rapidamente vou de quartel em quartel, altero os comandos, esvazio o golpe. Depois do jogo, o Botelho Moniz ainda vem ao meu gabinete tentar uma solução pacífica, que eu trate de acabar com a Censura e outras parvoíces... Ele a falar e eu a lembrar-me de um outro Botelho Moniz fundador da Legião Portuguesa e comandante dos nossos Viriatos na guerra de Espanha. Este aqui degenerou, não saiu aos seus... Corto rente: - Senhor General, está demitido, queira retirar-se!
Em Angola dão-me uma facada pelas costas. E agora, na minha própria casa, outra facada me queriam dar?
A 13 de Março vou à Emissora Nacional e proclamo, espicaço:
- Para Angola e em força!
Mobilização, flores, fanfarras, a Pátria não se discute!
Mas a 15 de Março a quadrilha do Holden Roberto começa a chacina no norte de Angola. Ele, que nem português sabe falar, é traidor de segunda financiado pelos americanos.
A PIDE avisa-me que outros, dos que estudaram na Metrópole, como o médico Agostinho Neto e o engenheiro agrónomo Amílcar Cabral, também andam lá por fora a organizar movimentos terroristas de outro cariz. Fiz mal em ter aberto em Lisboa a Casa dos Estudantes do Império. Apesar de assimilados, e até licenciados, portugueses de segunda, de segunda serão sempre.
A 21 de Abril há uma resolução da ONU a condenar a política africana de Portugal. Ninguém entende a nossa forma de estar no mundo, à qual um brasileiro chamou, e muito bem, de luso-tropicalismo. Não percebem que a nossa Nação é pluricontinental e plurirracial, é Una, vai do Minho a Timor e a Pátria não se discute.
A 19 de Dezembro tropas indianas invadem Goa, Damão e Diu. Eu tinha ordenado que resistíssemos até ao último homem. O nosso martírio (e eu só estava à espera dele...) levaria ao ridículo internacional o incensado pacifismo de Nehru. Mas Vassalo e Silva, o comandante da nossa tropa, acovardou-se, rendeu-se, traiu-me. Fico muito abalado com a traição.
Na noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro há uma tentativa de sublevação no quartel de Beja, e nela está envolvido o próprio Humberto Delgado. A PIDE está a par das movimentações. Abafa a revolta mas o susto é grande.
Este foi o pior ano da minha vida.

ORGULHOSAMENTE SÓ

Torno a levantar-me. Não vejo o barquinho, não sei o que é feito dele.
Ingleses, franceses e belgas abandonaram a África e agora exigem que façamos como eles fizeram? Estão enganados, somos diferentes, não viramos costas à Pátria que dilatámos, soprados somos pelos ventos da História. Não querem ouvir-me e fico só, orgulhosamente só.
Porventura em Portugal estarei mais só. Mas não me entrego, já disse que sou osso duro de roer. Hei-de vedar as brechas da União Nacional, ela tornará a ser o que foi no início, aglutinação de todas as direitas, a Direita, a única. Faço como sempre fiz, alivio o secundário, atarraxo o principal. Em 1958 dei aumento aos funcionários públicos mas, ao mesmo tempo, promovi a caça aos comunistas, o escultor Dias Coelho foi abatido na rua como um cão raivoso e a PIDE destroçou quase que por completo o aparelho clandestino da lesa-Pátria. Em 1959 consenti que Portugal aderisse à EFTA, lancei o Plano de Fomento, abri linhas de crédito para as indústrias mas, ao mesmo tempo, dei caça ao Delgado e aos “delgadistas”.
No meu tempo era a Direita que fascinava os estudantes universitários. Hoje parece que é a Esquerda, consequências da famigerada instrução que alastrou sem rei nem roque... Para esse perigo alertei os doutores que me cercam. Não me quiseram ouvir e aí está o resultado: em 1962 rebenta a crise académica de Lisboa. A um grupo de estudantes católicos chego mesmo a dizer: - Não estraguem as vossas vidas, não se metam em políticas, façam como eu, a minha política é o trabalho!
Ouço que abafam risos. Só há um remédio, safanão a tempo, estudantes para o calabouço!
Mais preocupado me deixa o Ultramar. Em 1963 os terroristas do Amílcar Cabral, traidor de segunda, financiado pelos russos, abrem uma segunda frente na Guiné. Espicaço, vamos também em força para a Guiné! Para aliviar a pressão em Angola apoio a secessão catanguesa do ex-Congo Belga e o comunista Lumumba é justiçado. Mas em 1964 os terroristas do Eduardo Mondlane, outro traidor de segunda também financiado pelos russos, abrem uma terceira frente em Moçambique. Espicaço, vamos também em força para Moçambique! A Grã-Bretanha, os Estados Unidos, a Rússia, a ONU, exigem referendos para a autodeterminação das nossas Províncias Ultramarinas. Estão iludidos, não vou à fala, não converso com terroristas. Orgulhosamente sós… a Pátria não se discute!
É-me já difícil manter o equilíbrio orçamental: três guerras no Ultramar e o consequente sorvedouro financeiro, também a expansão económica da Metrópole que já não consigo domar... Paliativos? As remessas dos emigrantes, o turismo (com a consequente infecção da nossa moral e costumes), também o investimento estrangeiro. Assim começa a ser ofuscada a nossa forma de estar no mundo... É preocupante, mas pior que tudo são as traições. Em 1964 o Papa visita a Índia e, no ano seguinte, visita as Nações Unidas que tanto me atanazam. Não lhe perdoo, nem sequer quando vem a Fátima a 13 de Maio de 1967.
As traições, as traições... Em 1965 há nova crise académica e Marcelo Caetano sai em defesa dos estudantes que levaram o merecido safanão. Logo ele, o meu ex-Ministro da Presidência... Tenho sonhado muito com o Rolão Preto, pesadelos.
Não cedo, não arredo! Para aliviar a pressão em Moçambique, juntamente com a África do Sul apoio a independência da Rodésia de Ian Smith. E ainda em 65 mando assaltar e encerrar a Sociedade (dita Portuguesa) de Escritores, que premiou o romance de um terrorista angolano! E em 67 mando assaltar e fechar a Cooperativa Pragma (dita de acção cultural), aí os comunistas até fingiam de católicos. Para mais me perturbar, sei que ali também arengava o filho de um dos meus fieis.
Ainda em 1967 bandidos comunistas assaltam a dependência do Banco de Portugal na Figueira da Foz e fogem com o dinheiro, que não é pouco. Mas o que é que andam a fazer a PIDE e a GNR e a PSP? Até essas forças já me falham?
Bandidos mais perigosos são os estudantes, veja-se o que fizeram com o General De Gaulle em Maio passado. Esta subversão moderna tem de ter um ponto final! Começo por deportar o Mário Soares para S. Tomé. Só porque era o advogado da família Delgado, queria meter o bedelho aonde não era chamado...
O Delgado, ai o Delgado... Uma das raras alegrias que eu tive nestes tempos conturbados, ocorreu em 1965. Em Argel conspiravam comunistas, delgadistas e outros "reviralhistas", queriam até aliciar a ingenuidade lusitana através das ondas curtas. Rosa Casaco, o meu fiel inspector da PIDE, de Argel conseguiu atrair o Delgado até perto de Olivença, emboscada. Estou a ver o general a chegar à fronteira a meio da noite, a morder o isco, a engasgar-se, a levar um tiro. E a apagar-se, obviamente. Dá-me vontade de rir e largo o corpo na cadeira

3 de Agosto de 1968 a cadeira prega-lhe realmente uma partida: queda, a cabeça a bater no chão, hematoma cerebral, bloco operatório, diminuição das faculdades mentais. Depois de muito hesitar, Américo Tomás acaba por nomear Marcelo Caetano para a Presidência do Conselho de Ministros. Alguns destes, junto de Salazar, fingem que é ele ainda o Presidente do Conselho; ou ele finge acreditar na encenação e, a fingir, lá vai dando despacho aos assuntos correntes. Morre a 27 de Julho de 1970 com 81 anos de idade e 42 de poder ininterrupto.